domingo, fevereiro 12, 2012

Sou che guevara, sou sem teto, sou militante... na luta eu resisto a cada instante..

Esse capital só serve para coisa banal, vive explorando o trabalhador e coisa e tal.
Se rico usa droga, mas e daí, se ta na moda?
Mas se é pobre, ai é foda, vagabundos, mata nós com chacina, nos faz prostituir em cada esquina.

Mundo cruel, mundo opressor, explorando a vida do trabalhador

o capital é monopolista, é selvagem, é imperialista.
É preciso resistir juventude socialista, para construir a sociedade comunista.

É preciso ter fé na humanidade, para construir a nossa liberdade e se ter um mínimo de dignidade...

Em busca da sonhada justiça social, indo com tudo contra o capital.

Fazer uma revolução com alegria, garantindo sempre nossa autonomia, e isso se faz no dia-a-dia, respeitando a democracia.

Sempre com foco em nossa emancipação e dando um fim a toda exploração.

"sou poeta, sou operário, e quero que todos os fascistas vão pra casa do caralho. "

Para além do bem e do mal...


Em Os Irmão Karamazóvi[1] o personagem de Dostoiévski afirma que se o ser humano não tivesse inventado Deus não haveria civilização. Ele retoma a frase de “um velho pecador do século XVIII”: “Si Dieu n’existait pas, il froudait l’inventer” (“Se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo”). Ivã Fiódorovitch, em diálogo com o irmão caçula, Aliócha, retoma o dito voltaireano e aprofunda o argumento: “E, com efeito, foi o homem quem inventou Deus. E o que é espantoso não é que Deus exista realmente, mas que esta idéia tenha vindo ao espírito de um animal feroz e mau como o homem, tão santa, comovente e sábia é ela, tanta honra faz homem. Quanto a mim, renunciei desde muito tempo a perguntar a mim mesmo se foi Deus quem criou o homem, ou o homem que criou Deus” (p.176).
A crença no humano, que transparece na fala de Ivã, é algo simplesmente admirável. Fez-me lembrar uma conversa recente com o meu amigo Walterego sobre o preconceito e o racismo. Eu, influenciado pela leitura de Os jacobinos negros[2], fiz um breve comentário sobre a minha dificuldade em compreender uma época na qual o ser humano foi escravizado e sofreu as mais bárbaras crueldades apenas e somente porque seu organismo continha mais melanina. No entanto, disse-me o amigo, é admirável do que o humano é capaz de criar para e pelo bem.
Como é possível o humano, um ser propenso ao mal e com a capacidade de cometer atrocidades as mais terríveis e indescritíveis, até mesmo em Nome de Deus, ser capaz de criar uma idéia tão pura e liberta de todo o mal? A resposta dos que pensam em moldes dicotômicos, dos que concebem o mundo maniqueisticamente enquanto a mera contradição entre o bem e o mal, é simples e simplista. A questão é mais complexa, pois se refere à complexidade do ser humano. O mesmo ser humano capaz de praticar o bem pode se revelar, com toda intensidade, a própria encarnação do mal. No mais bondoso do homem, na mais pura e inocente bondade de uma criança, de uma mulher, habita o mal.
Como escreve João Guimarães Rosa: “Tudo é e não é… Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! (…) Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”.[3] Os eventos históricos estão repletos de exemplos. Os nazistas banalizaram o mal, mas, no entanto, eram cultos, bons pais, boas mães, bons filhos, boas filhas, bons maridos, boas esposas, etc.
Tudo é e não é! Para minimante tentar compreender a natureza humana é preciso ir além do dualismo e maniqueísmo. O desafio é pensar dialeticamente. Aliás, também há os pretensamente dialéticos que imaginam existir uma essência humana boa, civilizada. Eis que o humanismo ingênuo anda de mãos dadas com um certo pensamento que se considera materialista e dialético. Ora, o homem civilizado abriga em si o bárbaro – os próprios conceitos de civilização e barbárie precisam ser rediscutidos, pois que bárbaro é sempre o outro e, invariavelmente, este é um argumento para a opressão de povos tidos como inferiores. As luzes da razão iluminista podem brilhar tanto a ponto de cegar e não nos deixar ver a barbárie perpetrada pela razão.
A natureza humana também incorpora o mal. Como bem observou o florentino, no século XVI, tolos os que agem considerando apenas a propensão humana à bondade, ao bem. Eles se surpreenderão com a capacidade do humano em fazer o mal. Como afirma o personagem de Dostoiévski:
− Penso que se o diabo não existe e foi por conseguinte criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem (p.176).
− Cada homem oculta em si um demônio… (p.181).
O ser humano incorpora em si Deus e o Demônio, o bem e o mal. Muitas vezes, na busca do bem, ele adota práticas que devem enrubescer o demo. Por outro lado, nem todas as boas ações produzem o bem, podem até mesmo gerar o oposto. Para Maquiavel, de um ponto de vista político, o que conta mesmo é o resultado alcançado. É nisto que, em última instância, reside o julgamento humano. Pelo menos no que diz respeito às coisas humanas na esfera terrestre. O humano, demasiado humano, como diria Nietzsche, é muito mais complexo do que a vã filosofia do humanismo cândido. Quanto ao sobrenatural, fica a critério da imaginação de cada um…

segunda-feira, janeiro 09, 2012

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo


No segundo texto da série "Marxismo e Século XXI", Emir Sader trata das relações entre teoria e prática no contexto da obra e do legado de Marx: "Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica", defende.

“Não se pode separar mecanicamente as questões políticas das questões de organização”.

(Lênin, Discurso de encerramento do 11° Congresso do Partido Comunista da Rússia, citado por Lukacs no encabeçamento do seu ensaio “Notas metodológicas sobre as questões de organização”, em “História e consciência de classe”)

O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa razão, suas primeiras grandes expressões – Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, – foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, teóricos e dirigentes revolucionários. Suas analises e denúncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradições como motores da realidade, para poder compreendê-la na sua dinâmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho teórico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transformação concreta e radical da realidade. Daí essa identidade indissolúvel entre trabalho teórico e direção política revolucionária, prática intelectual e trabalho partidário, as fronteiras entre suas atividades como teóricos e como dirigentes revolucionários eram tênues, a ponto que a primeira sistematização da idéia do comunismo – o Manifesto Comunista – foi encomendada politicamente e serviu como documento básico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

A partir do fenômeno que Perry Anderson chamou de “marxismo ocidental”(Nota: in Anderson, Perry, Afinidades seletivas, Boitempo Editorial), - resultado da combinação negativa da stalinização dos partidos comunistas e da repressão fascista - passou a haver uma ruptura entre teoria e prática, retornando, agora sobre o marxismo, a imagem do intelectual desvinculado da prática política, com a correspondente autonomização do discurso teórico. As estruturas partidárias, hegemonizadas pelo stalinismo, bloqueavam elaborações e debates teóricos e políticos alternativos, fazendo com que se produzisse uma nova figura no marxismo: o intelectual desvinculado da prática política. Seu correlato foi a prática política partidária desvinculada da elaboração teórica.

Inevitavelmente a analise e a denúncia passaram a predominar sobre as propostas, as alternativas. Houve um deslocamento dos temas, mas também um deslocamento a favor da teoria desvinculada da prática política. Prática política sem teoria, teoria sem prática – os dois problemas passaram a pesar comum um carma sobre o marxismo e a esquerda. A prática política da esquerda tendeu ao realismo, ao possibilismo, ao abandono da estratégia, enquanto a teoria marxista tendeu ao intelectualismo, a visões especulativas, de simples denúncia, de polêmicas ideológicas em torno os princípios, sem desdobramentos práticos. 

Nas décadas mais importantes até aqui da sua trajetória – dos anos 20 do século passado em diante -, a esquerda não pôde contar com a articulação entre seus melhores intelectuais para elaborações que contribuíssem diretamente para enriquecer sua prática política e, ao mesmo tempo, um período de extraordinária riqueza na elaboração teórica do marxismo, não esteve diretamente articulada com a prática, enriquecida por ela e apontando temas e relações concretas de força. 

A afirmação de Lênin que encabeça este artigo remete exatamente a isso: não existe um momento de elaboração teórica e depois um momento de aplicação concreta das conclusões teóricas. O marxismo articula intrinsecamente a política e as questões de organização, como uma das expressões da articulação entre teoria e prática. Uma analise marxista que não se articule com projetos de transformação revolucionária, castra o marxismo da sua diferença específica em relação a todas as outras teorias. Um intelectual que se diz marxista e não articula seu pensamento com a prática político-partidária, não assume o marxismo como pensamento dialético, como motor da prática política concreta. Corre todos os riscos de autonomizar a teoria, de desprezar as relações de força políticas, de não captar os movimentos reais da história. Foi o que afetou o marxismo ocidental, que não pôde aliar a imensa criatividade teórica dos autores que podem ser incorporados nessa categoria, à transformação dessa teoria em força material, pela penetração nas massas – conforme a afirmação de Marx. Perdeu a teoria sua dimensão transformadora, perdeu a prática política a imensa capacidade analítica da teoria.

Esse descolamento é politicamente grave, sendo responsável por um forte e reiterado sentimento de parte dos intelectuais, que se reivindicam legítimos representantes da teoria, que pretendem expressar em estado puro, que tem razão contra o abastardamento da política. (O próprio Lukacs expressou isso de forma consciente no novo prefácio de História e consciência de classe, quando confessa que sentia que sempre tinha tido razão e sempre tinha perdido politicamente, deduzindo que devia afastar-se da política.) Que, na realidade, entre a teoria e a realidade – sempre heterodoxa – ficam com a teoria e se isolam da prática, dos caminhos reais da história concreta.

Essa distância se torna ainda mais grave quando o mundo vive situações inéditas – hegemonia capitalista e imperial global, junto a exibição clara de suas debilidades e de retrocesso dos chamados fatores subjetivos da construção de alternativas anticapitalistas -, em que a reflexão teórica articulada com a prática política se torna ainda mais indispensável. O refúgio de setores da intelectualidade na denuncia de capitulações políticas, sem capacidade de propor alternativas, e a trajetória empírica, de adaptação correlações de força desfavoráveis por parte de forças políticas, constitui um quadro negativo, desfavorável à construção de soluções superadoras da enorme crise hegemônica que vivem nossos países e o mundo globalizado.

O exemplo dramático da Venezuela é muito significativo, em que um processo político inovador, corajoso, se choca com a oposição frontal de quase que a totalidade da intelectualidade universitária. Enquanto esta se divide entre um denuncismo de esquerda, sem ingerência política e capacidade propositiva alternativa, o processo político ressente de uma capacidade reflexiva vinculada á sua prática para contribuir a encarar seus dilemas e a definir seu futuro.

Mas o fenômeno se estende, de maneira mais ou menos similar, a todo o continente. Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Se trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica. Exemplos da articulação entre capacidade de elaboração teórica e de direção política fora, na América Latina, o chileno Luis Emilio Recabarren, o cubano Julio Antonio Mella, o peruano José Carlos Mariategui e, mais recentemente, o brasileiro Ruy Mauro Marini e o boliviano Alvaro Garcia Linera – demonstrando a factibilidade dessa articulação e de como ela fertiliza tanto a criação teórica, quanto a prática política.

A imagem do marxista universitário, desvinculado da prática política é uma contradição em termos, uma incoerência, da mesma forma que dirigentes políticos marxistas que não sejam ao mesmo tempo intelectuais revolucionários. O ponto de vista do marxismo é um ponto de vista de partido, desde um partido, desde a acumulação de forças para um objetivo estratégico, programático. Não se trata defender a teoria como cânone teórico intocável, mas de resgatar o marxismo como metodologia – sua única dimensão ortodoxa, segundo Lukacs -, de crítica e de superação da realidade existente.

Fonte: Carta Maior
Elogio do Revolucionário

Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.

Interroga a propriedade:
De onde vens?
Pergunta a cada idéia:
Serves a quem?

Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se sentase senta a insatisfação.
À comida sabe mal e a sala se torna estreita.

Aonde o vai a revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.

Brecht

domingo, janeiro 08, 2012

O senso comum repete quase sempre que "pau que nasce torto nunca se endireita".
A priori essa frase parece inofensiva e sem nenhum impacto no cotidiano, mas sua essência nos revela um tom conservador. Ao comprar o homem com uma árvore, negando toda a racionalidade, inteligência e consciência que tem a pessoa humana. Como se o homem e natureza fosse a mesma coisa, o mesmo "fato social".

Outro aspecto é que o homem como se já nascesse torto, ou mau, ruim... em essência não servisse ao "reto" que é o padrão da sociedade. Como que por acaso alguém nasce torto, desconsiderando o homem enquanto processo histórico, dialético e complexo, e ainda mais "não se endireita", isto é, em essência é ruim, não presta.. um tremendo fatalismo!

desconsidera-se assim a capacidade humana de superar-se, de construir sua própria história. O homem, ao mesmo tempo que determina a dinâmica social, é determinado por ela.

Karl Marx afirma que "ser radical é ir às raízes e a raiz do homem é o próprio homem".
Nesta sublime frase afirma a necessidade de ir além do aparente, de buscar a essência, a totalidade. E que o homem enquanto sujeito coletivo e histórico deve buscar em si mesmo sua essência, e não no divino ou no ideal.

sábado, janeiro 07, 2012

Companheiros são mais que pessoas que compartilhamos o pão
Somamos nas lutas, dividimos derrotas, multiplicamos vitórias, vencemos desafios e fortalecemos ideias. São irmãos, amigos.

Se continuam um no outro, rompendo-se a barreira do eu indivíduo individual, para se tornar um amplo, profundo e complexo ser coletivo.

Nas caídas, levantamos juntos, pois assim mostramos ao nosso inimigo o valor da solidariedade e fraternidade.
Nas crises, lutamos ombro a ombro, fortalecendo a teoria na prática.
Plantando hoje o "jamais", o "impossível", os "sonhos", a "utopia". Podendo não colher, não chegar lá onde queremos, no mundo novo, mas sabendo que a caminhada valerá a pena com os companheiros.

Entre abraços, apertos de mão, também há punhos cerrados, há indignação, há coração...

Shellen, 4 de janeiro de 2012.

Nada para fazer
Amor... o que é esse sentimento?
Ternura?! Ou será tormento?!

Ao vento jogam-se juras de amor... paixão, sonhos, tesão e confiança
Ao vento jogam-se palavras de desprezo... raiva, pena ódio e vingança

Ao seu lado te prometo amor sem fim
Longe te desejo distância de mim.

Com você quero ser viver eterno amor
Sem você quero ser feliz seja como for

Foi bom enquanto durou!
O sentimento não é recíproco, que bom que acabou!


Shellen, 04 de janeiro de 2012

Sem nada pra fazer

domingo, fevereiro 12, 2012

Sou che guevara, sou sem teto, sou militante... na luta eu resisto a cada instante..

Esse capital só serve para coisa banal, vive explorando o trabalhador e coisa e tal.
Se rico usa droga, mas e daí, se ta na moda?
Mas se é pobre, ai é foda, vagabundos, mata nós com chacina, nos faz prostituir em cada esquina.

Mundo cruel, mundo opressor, explorando a vida do trabalhador

o capital é monopolista, é selvagem, é imperialista.
É preciso resistir juventude socialista, para construir a sociedade comunista.

É preciso ter fé na humanidade, para construir a nossa liberdade e se ter um mínimo de dignidade...

Em busca da sonhada justiça social, indo com tudo contra o capital.

Fazer uma revolução com alegria, garantindo sempre nossa autonomia, e isso se faz no dia-a-dia, respeitando a democracia.

Sempre com foco em nossa emancipação e dando um fim a toda exploração.

"sou poeta, sou operário, e quero que todos os fascistas vão pra casa do caralho. "

Para além do bem e do mal...


Em Os Irmão Karamazóvi[1] o personagem de Dostoiévski afirma que se o ser humano não tivesse inventado Deus não haveria civilização. Ele retoma a frase de “um velho pecador do século XVIII”: “Si Dieu n’existait pas, il froudait l’inventer” (“Se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo”). Ivã Fiódorovitch, em diálogo com o irmão caçula, Aliócha, retoma o dito voltaireano e aprofunda o argumento: “E, com efeito, foi o homem quem inventou Deus. E o que é espantoso não é que Deus exista realmente, mas que esta idéia tenha vindo ao espírito de um animal feroz e mau como o homem, tão santa, comovente e sábia é ela, tanta honra faz homem. Quanto a mim, renunciei desde muito tempo a perguntar a mim mesmo se foi Deus quem criou o homem, ou o homem que criou Deus” (p.176).
A crença no humano, que transparece na fala de Ivã, é algo simplesmente admirável. Fez-me lembrar uma conversa recente com o meu amigo Walterego sobre o preconceito e o racismo. Eu, influenciado pela leitura de Os jacobinos negros[2], fiz um breve comentário sobre a minha dificuldade em compreender uma época na qual o ser humano foi escravizado e sofreu as mais bárbaras crueldades apenas e somente porque seu organismo continha mais melanina. No entanto, disse-me o amigo, é admirável do que o humano é capaz de criar para e pelo bem.
Como é possível o humano, um ser propenso ao mal e com a capacidade de cometer atrocidades as mais terríveis e indescritíveis, até mesmo em Nome de Deus, ser capaz de criar uma idéia tão pura e liberta de todo o mal? A resposta dos que pensam em moldes dicotômicos, dos que concebem o mundo maniqueisticamente enquanto a mera contradição entre o bem e o mal, é simples e simplista. A questão é mais complexa, pois se refere à complexidade do ser humano. O mesmo ser humano capaz de praticar o bem pode se revelar, com toda intensidade, a própria encarnação do mal. No mais bondoso do homem, na mais pura e inocente bondade de uma criança, de uma mulher, habita o mal.
Como escreve João Guimarães Rosa: “Tudo é e não é… Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! (…) Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”.[3] Os eventos históricos estão repletos de exemplos. Os nazistas banalizaram o mal, mas, no entanto, eram cultos, bons pais, boas mães, bons filhos, boas filhas, bons maridos, boas esposas, etc.
Tudo é e não é! Para minimante tentar compreender a natureza humana é preciso ir além do dualismo e maniqueísmo. O desafio é pensar dialeticamente. Aliás, também há os pretensamente dialéticos que imaginam existir uma essência humana boa, civilizada. Eis que o humanismo ingênuo anda de mãos dadas com um certo pensamento que se considera materialista e dialético. Ora, o homem civilizado abriga em si o bárbaro – os próprios conceitos de civilização e barbárie precisam ser rediscutidos, pois que bárbaro é sempre o outro e, invariavelmente, este é um argumento para a opressão de povos tidos como inferiores. As luzes da razão iluminista podem brilhar tanto a ponto de cegar e não nos deixar ver a barbárie perpetrada pela razão.
A natureza humana também incorpora o mal. Como bem observou o florentino, no século XVI, tolos os que agem considerando apenas a propensão humana à bondade, ao bem. Eles se surpreenderão com a capacidade do humano em fazer o mal. Como afirma o personagem de Dostoiévski:
− Penso que se o diabo não existe e foi por conseguinte criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem (p.176).
− Cada homem oculta em si um demônio… (p.181).
O ser humano incorpora em si Deus e o Demônio, o bem e o mal. Muitas vezes, na busca do bem, ele adota práticas que devem enrubescer o demo. Por outro lado, nem todas as boas ações produzem o bem, podem até mesmo gerar o oposto. Para Maquiavel, de um ponto de vista político, o que conta mesmo é o resultado alcançado. É nisto que, em última instância, reside o julgamento humano. Pelo menos no que diz respeito às coisas humanas na esfera terrestre. O humano, demasiado humano, como diria Nietzsche, é muito mais complexo do que a vã filosofia do humanismo cândido. Quanto ao sobrenatural, fica a critério da imaginação de cada um…

segunda-feira, janeiro 09, 2012

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo


No segundo texto da série "Marxismo e Século XXI", Emir Sader trata das relações entre teoria e prática no contexto da obra e do legado de Marx: "Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica", defende.

“Não se pode separar mecanicamente as questões políticas das questões de organização”.

(Lênin, Discurso de encerramento do 11° Congresso do Partido Comunista da Rússia, citado por Lukacs no encabeçamento do seu ensaio “Notas metodológicas sobre as questões de organização”, em “História e consciência de classe”)

O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa razão, suas primeiras grandes expressões – Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, – foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, teóricos e dirigentes revolucionários. Suas analises e denúncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradições como motores da realidade, para poder compreendê-la na sua dinâmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho teórico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transformação concreta e radical da realidade. Daí essa identidade indissolúvel entre trabalho teórico e direção política revolucionária, prática intelectual e trabalho partidário, as fronteiras entre suas atividades como teóricos e como dirigentes revolucionários eram tênues, a ponto que a primeira sistematização da idéia do comunismo – o Manifesto Comunista – foi encomendada politicamente e serviu como documento básico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

A partir do fenômeno que Perry Anderson chamou de “marxismo ocidental”(Nota: in Anderson, Perry, Afinidades seletivas, Boitempo Editorial), - resultado da combinação negativa da stalinização dos partidos comunistas e da repressão fascista - passou a haver uma ruptura entre teoria e prática, retornando, agora sobre o marxismo, a imagem do intelectual desvinculado da prática política, com a correspondente autonomização do discurso teórico. As estruturas partidárias, hegemonizadas pelo stalinismo, bloqueavam elaborações e debates teóricos e políticos alternativos, fazendo com que se produzisse uma nova figura no marxismo: o intelectual desvinculado da prática política. Seu correlato foi a prática política partidária desvinculada da elaboração teórica.

Inevitavelmente a analise e a denúncia passaram a predominar sobre as propostas, as alternativas. Houve um deslocamento dos temas, mas também um deslocamento a favor da teoria desvinculada da prática política. Prática política sem teoria, teoria sem prática – os dois problemas passaram a pesar comum um carma sobre o marxismo e a esquerda. A prática política da esquerda tendeu ao realismo, ao possibilismo, ao abandono da estratégia, enquanto a teoria marxista tendeu ao intelectualismo, a visões especulativas, de simples denúncia, de polêmicas ideológicas em torno os princípios, sem desdobramentos práticos. 

Nas décadas mais importantes até aqui da sua trajetória – dos anos 20 do século passado em diante -, a esquerda não pôde contar com a articulação entre seus melhores intelectuais para elaborações que contribuíssem diretamente para enriquecer sua prática política e, ao mesmo tempo, um período de extraordinária riqueza na elaboração teórica do marxismo, não esteve diretamente articulada com a prática, enriquecida por ela e apontando temas e relações concretas de força. 

A afirmação de Lênin que encabeça este artigo remete exatamente a isso: não existe um momento de elaboração teórica e depois um momento de aplicação concreta das conclusões teóricas. O marxismo articula intrinsecamente a política e as questões de organização, como uma das expressões da articulação entre teoria e prática. Uma analise marxista que não se articule com projetos de transformação revolucionária, castra o marxismo da sua diferença específica em relação a todas as outras teorias. Um intelectual que se diz marxista e não articula seu pensamento com a prática político-partidária, não assume o marxismo como pensamento dialético, como motor da prática política concreta. Corre todos os riscos de autonomizar a teoria, de desprezar as relações de força políticas, de não captar os movimentos reais da história. Foi o que afetou o marxismo ocidental, que não pôde aliar a imensa criatividade teórica dos autores que podem ser incorporados nessa categoria, à transformação dessa teoria em força material, pela penetração nas massas – conforme a afirmação de Marx. Perdeu a teoria sua dimensão transformadora, perdeu a prática política a imensa capacidade analítica da teoria.

Esse descolamento é politicamente grave, sendo responsável por um forte e reiterado sentimento de parte dos intelectuais, que se reivindicam legítimos representantes da teoria, que pretendem expressar em estado puro, que tem razão contra o abastardamento da política. (O próprio Lukacs expressou isso de forma consciente no novo prefácio de História e consciência de classe, quando confessa que sentia que sempre tinha tido razão e sempre tinha perdido politicamente, deduzindo que devia afastar-se da política.) Que, na realidade, entre a teoria e a realidade – sempre heterodoxa – ficam com a teoria e se isolam da prática, dos caminhos reais da história concreta.

Essa distância se torna ainda mais grave quando o mundo vive situações inéditas – hegemonia capitalista e imperial global, junto a exibição clara de suas debilidades e de retrocesso dos chamados fatores subjetivos da construção de alternativas anticapitalistas -, em que a reflexão teórica articulada com a prática política se torna ainda mais indispensável. O refúgio de setores da intelectualidade na denuncia de capitulações políticas, sem capacidade de propor alternativas, e a trajetória empírica, de adaptação correlações de força desfavoráveis por parte de forças políticas, constitui um quadro negativo, desfavorável à construção de soluções superadoras da enorme crise hegemônica que vivem nossos países e o mundo globalizado.

O exemplo dramático da Venezuela é muito significativo, em que um processo político inovador, corajoso, se choca com a oposição frontal de quase que a totalidade da intelectualidade universitária. Enquanto esta se divide entre um denuncismo de esquerda, sem ingerência política e capacidade propositiva alternativa, o processo político ressente de uma capacidade reflexiva vinculada á sua prática para contribuir a encarar seus dilemas e a definir seu futuro.

Mas o fenômeno se estende, de maneira mais ou menos similar, a todo o continente. Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Se trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica. Exemplos da articulação entre capacidade de elaboração teórica e de direção política fora, na América Latina, o chileno Luis Emilio Recabarren, o cubano Julio Antonio Mella, o peruano José Carlos Mariategui e, mais recentemente, o brasileiro Ruy Mauro Marini e o boliviano Alvaro Garcia Linera – demonstrando a factibilidade dessa articulação e de como ela fertiliza tanto a criação teórica, quanto a prática política.

A imagem do marxista universitário, desvinculado da prática política é uma contradição em termos, uma incoerência, da mesma forma que dirigentes políticos marxistas que não sejam ao mesmo tempo intelectuais revolucionários. O ponto de vista do marxismo é um ponto de vista de partido, desde um partido, desde a acumulação de forças para um objetivo estratégico, programático. Não se trata defender a teoria como cânone teórico intocável, mas de resgatar o marxismo como metodologia – sua única dimensão ortodoxa, segundo Lukacs -, de crítica e de superação da realidade existente.

Fonte: Carta Maior
Elogio do Revolucionário

Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.

Interroga a propriedade:
De onde vens?
Pergunta a cada idéia:
Serves a quem?

Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se sentase senta a insatisfação.
À comida sabe mal e a sala se torna estreita.

Aonde o vai a revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.

Brecht

domingo, janeiro 08, 2012

O senso comum repete quase sempre que "pau que nasce torto nunca se endireita".
A priori essa frase parece inofensiva e sem nenhum impacto no cotidiano, mas sua essência nos revela um tom conservador. Ao comprar o homem com uma árvore, negando toda a racionalidade, inteligência e consciência que tem a pessoa humana. Como se o homem e natureza fosse a mesma coisa, o mesmo "fato social".

Outro aspecto é que o homem como se já nascesse torto, ou mau, ruim... em essência não servisse ao "reto" que é o padrão da sociedade. Como que por acaso alguém nasce torto, desconsiderando o homem enquanto processo histórico, dialético e complexo, e ainda mais "não se endireita", isto é, em essência é ruim, não presta.. um tremendo fatalismo!

desconsidera-se assim a capacidade humana de superar-se, de construir sua própria história. O homem, ao mesmo tempo que determina a dinâmica social, é determinado por ela.

Karl Marx afirma que "ser radical é ir às raízes e a raiz do homem é o próprio homem".
Nesta sublime frase afirma a necessidade de ir além do aparente, de buscar a essência, a totalidade. E que o homem enquanto sujeito coletivo e histórico deve buscar em si mesmo sua essência, e não no divino ou no ideal.

sábado, janeiro 07, 2012

Companheiros são mais que pessoas que compartilhamos o pão
Somamos nas lutas, dividimos derrotas, multiplicamos vitórias, vencemos desafios e fortalecemos ideias. São irmãos, amigos.

Se continuam um no outro, rompendo-se a barreira do eu indivíduo individual, para se tornar um amplo, profundo e complexo ser coletivo.

Nas caídas, levantamos juntos, pois assim mostramos ao nosso inimigo o valor da solidariedade e fraternidade.
Nas crises, lutamos ombro a ombro, fortalecendo a teoria na prática.
Plantando hoje o "jamais", o "impossível", os "sonhos", a "utopia". Podendo não colher, não chegar lá onde queremos, no mundo novo, mas sabendo que a caminhada valerá a pena com os companheiros.

Entre abraços, apertos de mão, também há punhos cerrados, há indignação, há coração...

Shellen, 4 de janeiro de 2012.

Nada para fazer
Amor... o que é esse sentimento?
Ternura?! Ou será tormento?!

Ao vento jogam-se juras de amor... paixão, sonhos, tesão e confiança
Ao vento jogam-se palavras de desprezo... raiva, pena ódio e vingança

Ao seu lado te prometo amor sem fim
Longe te desejo distância de mim.

Com você quero ser viver eterno amor
Sem você quero ser feliz seja como for

Foi bom enquanto durou!
O sentimento não é recíproco, que bom que acabou!


Shellen, 04 de janeiro de 2012

Sem nada pra fazer