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quarta-feira, julho 01, 2015

5 coisas que você precisa saber sobre Karl Marx e o marxismo!


Karl Marx (1818-1883) é um dos mais expressivos filósofos do mundo. O que ele tem de expressivo e de uma enorme contribuição, tem de distorções de sua teoria e de sua obra monumental.

Leia mais em: 132 anos sem Karl Marx... um homem que mudou o mundo e entrou para a história


Shellen Galdino*
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"Durante o século XX, nas chamadas ‘sociedades democráticas’, ninguém teve seus direitos civis ou políticos limitados por ser durkheimiano ou weberiano – mas milhares de homens e mulheres, cientistas sociais ou não, foram perseguidos, presos, torturados, desterrados e até mesmo assassinados por serem marxistas". 

José Paulo Netto


De democrata humanista à revolucionário, o conjunto das obras de Karl Marx é de um impressionante arsenal teórico.



1. Marx, ou espírito do Mundo?!

Marx queria seguir a carreira acadêmica, porém isto não foi concretizado pela perseguição que ocorreu aos seguidores de Hegel na então universidade. Mas mesmo assim, se doutorou em filosofia.
Mas Karl Marx não entrou na história como filósofo, nem tão pouco como economista, sociólogo, cientista político, jornalista ou algo do tipo, Marx entrou para a história como revolucionário.

Marx ao doutourar-se (equivalente a graduação), conseguiu um emprego como jornalista em um jornal pequeno-burguês chamado A Gazeta Renana. Foi essa, sua única profissão, a de jornalista. Quando os conflitos começaram a fazer parte do cotidiano da Renania, Marx se deparou com uma realidade complexa, e viu-se com elementos insuficientes para compreender a realidade: seu estudo filosófico não dava conta dos conflitos entre sociedade civil e Estado. 


Assim, Marx recorre ao maior pensador da época que estuda o Estado e a sociedade civil. E é no idealismo de Hegel que Marx busca as respostas para compreender a realidade.

Mas, é com Engels que Karl Marx tem o primeiro acesso a uma crítica da economia política. A partir do contato com a economia política clássica, Marx encontra um dos pilares fundamentais de sua obra: o valor produzido pelo trabalho, que a partir da exploração, produz mais-valia que é apropriada pela classe burguesa.

Quem sofre essa exploração? Os trabalhadores ou os proletariados, que para Marx são o novo sujeito revolucionário, como fora a classe burguesa em outrora. Com a marca dos mais explorados, os trabalhadores podem libertar a si mesmo e toda a humanidade.

Neste sentido, Marx se aproxima das lutas dos trabalhadores na época, transformando assim sua obra numa espécia de guia para a transformação social e superação das desigualdades de classe. Marx e Engels se aproximam e fundam a Internacional Comunista, onde como manifesto, surge um dos livros mais conhecidos do mundo: o manifesto do partido comunista, em 1848.

Fora esta obra, Marx possui diversas obras, alguns manuscritos e outros artigos, como a Ideologia Alemã, Sobre a questão judaíca, o 18 de brumário, os Manuscristos econômicos e filosóficos... mas a principal obra de Marx ele demorou 15 anos para escrever: O Capital, volume I.


Marx dedicou a sua vida para compreender a sociedade burguesa, a sociedade do capital. Grande parte de suas análises do sistema capitalista ajudaram a compreender o mundo e são até hoje atuais, embora algumas, pelo passar dos anos se complexificaram ou desapareçam, daí a magnitude de sua obra.


2. Marx não é marxismo. Marxismo não é Marx

Vale lembrar que como Buda não era Budista, Marx não era marxista, e pelo contrário, nem gostava dessa "idolatria".

Podemos dividir de forma didática da seguinte maneira:

  • Teoria marxiana: obra realmente referente a Karl Marx, e em certa medida ao Engels.
  • Marxismo, ou melhor, tradição marxista: aqueles que se identificam com o método e construção teórica de Marx, e que em certa medida acrescenta, retiram e modificam a obra de Marx.

Assim, podemos dizer que teoria marxiana é a teoria do próprio Marx, e que o marxismo ou tradição marxista é um projeto teórico que abarca diversos homens, produto de intervenção intelectual e política, e se tratando assim de uma ampla diversidade, sendo correto afirmar que existem Marxismos, no plural. Que pode ser de Gramsci a Lukács, de Althusser a Poulantzas, de Carlos Nelson Coutinho a Florestan Fernandes, de Harvey a Michel Lowy... só essa lista já demonstra a pluralidade dessa corrente teórica.


3. Karl Marx pertence a chamada razão moderna, na crítica

Hoje (e não só hoje) temos muitas polêmicas no tocante as duas vertentes que disputam a direção do conhecimento: modernidade e pós-modernidade.

Assim, Marx pertence a um conjunto de intelectuais que são inspirados, de certa forma, pelo Iluminismo, pela razão, pelo humanismo e pela emancipação humana através dela mesma, diferente de um período anterior que de certa forma coloca essa salvação nas mãos de Deus.

Mas mesmo pertecendo a esse meio, Marx não faz um culto ou uma celebração a modernidade e ao capitalismo. Na verdade, Marx é um divisor de águas, quando de forma crítica se mantém no pensamento moderno. Assim, o pensamento marxista se trata de uma das expressões do pensamento moderno, e trata-se assim da perspectiva CRÍTICA, a que propõe uma superação desses moldes.

Por isso, de certa forma, os autores pós-modernos fazem uma crítica ao marxismo. O que a meu ver é um equívoco, pois colocam no mesmo julgo o marxismo e a razão instrumental e o positivismo.


4. A ortodoxia do método

O método é um pilar fundamental do marxismo. Um dos maiores marxistas do século XX, o húngaro Lukács, afirma que o método é na verdade a única "ortodoxia". Assim, por isso alguns pontos vistos por Marx podem ser revistos, se a partir do método. Lukács afirma:

"A ortodoxia em matéria de marxismo se reduz exclusivamente ao método." (Lukács, 1967)

Marx, diferente de alguns autores posteriores, não elencou uma série de regras metodológicas, porque via nisso uma forma de engessar a criação e ocultar a essência do real. Para ele:

"Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano, sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento[...] é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado." (MARX, 1968).


O espírito do legado de Marx consistia, nos termos de Vladimir Lenin, em uma “análise concreta de uma situação concreta”. Não interessava elaborar uma ciência da lógica, e sim a lógica de um objeto determinado. Descobrir esta lógica consiste em reproduzir idealmente (teoricamente) a estrutura e a dinâmica deste objeto.




5. Da filosofia à crítica da economia política

Diferente do que alguns possam afirmar, Marx não partiu do nada. Ele fez o que se faz para ser um bom intelectual: subiu no ombro dos gigantes. Assim, Marx se apropriou de todo o conhecimento gerado na sua época, inclusive literatura (ele lia bastante Goethe e Shaekspeare).

Assim, o mesmo avança criticamente a partir do conhecimento acumulado, Marx empreendeu a análise da sociedade burguesa, com o objetivo de descobrir a sua estrutura e a sua dinâmica, principalmente a partir desses pilares:

1. Economia Politica inglesa (Adam Smith, David Ricardo etc)
2. Socialismo utópico (Robert Owen, Fourier, Saint Simon etc)
3. Filosofia clássica alemã (Hegel, Kant etc)
4. Teoria da luta de classes burguesa (teóricos inspirados em 1789, a revolução francesa)

As formulações teórico-metodológicas iniciais de Marx, por volta dos anos 1840, aproximam-se ao materialismo – devidas à influência de Feuerbach; e começam a surgir críticas à filosofia  de Hegel. No decorrer do ano de 1844, é quando começa a se deslocar da crítica filosófica para a crítica da economia política e suas ideias ganham crescente elaboração.


*Shellen Galdino é Assistente Social e mestranda em Serviço Social na UFPB.

domingo, junho 14, 2015

Che Guevara: a imagem mais vista do mundo (14/06/1928 - 09/10/1967)

Ernesto Guevara de la Serna, conhecido como "Che" Guevara 
é com certeza umas das figuras mais conhecidas do século XX. O rosto do revolucionário e guerrilheiro argentino radicado em Cuba é a imagem mais vista, mais popular e conhecida do mundo, ao lado do de Jesus Cristo.




A marca do rosto de Che não é de uma cerveja, nem de uma empresa qualquer, mas da ousadia da juventude. É uma imagem que transcende fronteiras, gerações, partido, que transcende o próprio marketing. Como diz Emir Sader, qual gênio da publicidade poderia reinventar tal fenômeno?



O jovem médico e aventureiro que sai de moto da Argentina (ver o filme Diário de motocicleta) não ficou conhecido todavia por seu exercício profissional, mas sim como um guerrilheiro revolucionário, que ao lado de Fidel Castro derrubou a ditadura cubana de Batista e transformou a ilha a partir das ideias socialistas e revolucionárias:



"Sonha e serás livre de espírito...
luta e serás livre na vida."







Che virou um mito, e antes de ser mito, chegou a ser dirigente do Estado cubano e morreu lutando nas selvas bolivianas. O jovem argentino, quando na sua porta bate a Política, não tem mais como fugir... Ser apenas um médico e aventureiro não contemplava mais seus anseios, e assim, as experiências da Guatemala, Venezuela e México foram fundamentais.


"Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros."






Uma personsagem fundamental para o pensamento de Che Guevara e pouco citada ou conhecida, é sua esposa Hilda Gadea, com quem se casou e 1955. A mesma tinha uma formação marxista muito mais desenvolvida que a de Che, e assim o influenciou bastante a seguir este caminho.


Assim, a partir da guerrilha de Sierra Maestra é forjado a liderança de um revolucionário que não se contentou apenas com as mudanças em Cuba, e buscou ir em diversos outros países na esperança da guerra de guerrilhas na libertação do povo.




"Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira."





Além da vida agitada, da esperança na guera de guerrilhas apoiado pelo povo e na convicção que a juventude é revolucionaria, Che também é o portador mais emblemático do Humanismo revolucionário:


"Deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor..." ("O socialismo e o homem em Cuba)





Em seu pensamento é constante a preocupação com a formação do novo homem e da nova mulher, ou seja, da nova moral, um novo modo de ser, pensar e agir. Isso com certeza traz as dificuldades de se pensar os dilemas de se construir um mundo novo com o homem do mundo velho, e ele mesmo afirma "A nova sociedade em formação tem de competir muito duramente com o passado..."


Assim, se morrem os homens e a matérias e as ideias permanecem, Che Guevara é sem dúvidas um dos maiores exemplos disso da nossa história. E, como lembra o próprio Che Guevara, o guerrilheiro não está em luta para morrer por seus ideais, mas sim, torná-los realidade.

Minha singela homenagem a Che.
Hasta la victoria, siempre.

domingo, janeiro 11, 2015

Carlos Nelson Coutinho | A dualidade de Poderes

SOBRE O AUTOR

Carlos Nelson Coutinho foi um importante intelectual e ensaísta brasileiro. O mesmo nasceu na Bahia, no ano de 1943. O mesmo concluiu o curso de bacharelado em filosofia pela Universidade Federal da Bahia esse tornou depois professor de livre-docência na Universidade Federal do Rio de Janeiro, estado e se, que ganhou o coração do baiano. Ministrou ao longo de sua carreira cursos de Teoria Política e Formação Social do Brasil, principal no programa de pós-graduação em Serviço Social da UFRJ.

O marxista polêmico, se consagrou através de seus pertinentes ensaios, principalmente através dos estudos do italiano e comunista Antônio Gramsci, sendo um de seus principais tradutores e interpretes no Brasil.

Carlos Nelson, ao sempre trazer uma forma inovadora e crítica do marxismo (sem deixar de ser segundo ele ortodoxo) inovou o pensamento marxista brasileiro, ao lado de diversos outros intelectuais. A sua prioridade era pois, a discussão do marxismo e da política. Pois, segundo o mesmo, trata essa de uma esfera importante da luta de classes, inclusive por sua relativa autonomia.

Além de trazer a forma crítica, propositiva e inovadora do marxismo-gramsciano ao Brasil, sempre aliando esses estudos a proposta luckácsiana, abriu novos caminhos para o pensamento e a teoria social de Marx, assim como, o que ele sempre lembrava, a necessária compreensão do método em sua ortodoxia, mesmo compreendendo o marxismo como uma obra em aberto, e daí, sua atualidade. E o ainda, com pitadas de Poulantzas, além de Marx e Engels, claro.

E não pouco, Carlos Nelson Coutinho trouxe para o marxismo brasileiro a importante tarefa de discutir enfaticamente o que ele chamava de “questão democrática”, no qual ele lucidamente considerava a democracia como valor historicamente universal. Um tema polêmico, e até hoje deixado a revelia por parte da intelectualidade marxista, talvez, por erros metodológicos, e ora, por erros políticos.

Entre suas notáveis obras, destaca-se Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político (1989), Cultura e sociedade no Brasil (1990), Democracia e socialismo: questões de princípios & contexto brasileiro (1992), Estruturalismo e a miséria da razão e Marxismo e politica, em que sem encontra o ensaio aqui estudado, a dualidade de poderes.

No ensaio referido no título, Carlos Nelson traz importantes categorias de análise para a sua necessária renovação (sendo, nas palavras do autor, indissoluvelmente conservação, eliminação e renovação), o que, segundo o autor, Hegel buscou definir pela expressão Aufhebung. Entre elas, nesse ensaio, destaca-se Estado e Revolução, e seus principais conceitos, e a articulação com a questão da transição.

No mais, perdemos esse grande interlocutor, no recente ano de 2012. Segundo Gramsci, vale a pena viver quando se é comunista. Para Carlos Nelson valeu, deixou o seu melhor, um legado e uma história. As ideias nunca morrem, não por acaso, permanece o legado da “hegemonia como contrato”, um projeto, que Jaldes Meneses (2012) entre outros chamaram de “audacioso”, e, não há como negar tal fato. Viva a audácia, ela não nos permite o esquecimento.


SÍNTESE DO ENSAIO

A centralidade do ensaio "A dualidade de poderes" é realizar um “Estado da Arte” sobre a dualidade dos poderes, desde Marx e Engels, passando por Lenin e Trotski, até Gramsci, Togliati e Poulantzas, passando também pelo marxismo austríaco (austro-marxismo).

O objetivo do autor é demostrar como concretamente o Estado se ampliou, e assim as concepções também devem se ampliar, sendo na concepção do mesmo a escola gramsciana e mais precisamente as contribuições de Nicos Poulantzas fundamentais para essa compreensão de Estado, e assim, em consequência de uma estratégia revolucionária condizente com essa ampliação concreta de Estado.

Conforme Poulantzas:


O Estado […] não deve ser considerado uma entidade em si, mas - do mesmo modo como, de resto, deve ser feito com o 'capital' – como uma relação; mais exatamente, como a condensação material de uma correlação de forças entre classes e frações de classe, tal como essa se expressa, sempre de modo específico, no seio do Estado. (Poulantzas, 1978 apud Coutinho, 2008, p. 65)

Assim, em resumo o mesmo coloca a problemática da conservação x renovação na transição, ou seja, do papel da dualidade de poderes. Para isso, o autor coloca as duas principais concepções de Estado e Revolução no pensamento marxista. Assim, a forma de conceber o Estado teria em suma concepções mais “restritas” ou “amplas”, e disso partiria a elaboração de diferentes paradigmas de revolução socialista, respectivamente “explosiva” e “processual”.

Está também na questão do debate o papel da democracia na construção do socialismo, desde que se analise e tenha como central a ortodoxia do método em Marx e os próprios limites do liberalismo, e esse movimento deve ser constante de superações dialéticas.

Assim, podemos dizer que a concepção de Carlos Nelson Coutinho, é de que existe a possibilidade de “Dualidade de Poderes”, essa entendida como um misto de democracia representativa e democracia direta, para chegada ao socialismo, tendo em vista a ampliação do Estado e uma concepção processual da Revolução.

O debate central das possibilidades da Dualidade de Poderes em sociedade do tipo “ocidental”, também sustenta a tese do autor de Democracia como valor historicamente universal. E, de uma hipótese, de hegemonia como contrato.1

Assim, o polêmico intelectual brasileiro, dá uma enorme e polêmica contribuição para superação dialética marxiana de análise da realidade, principalmente na análise no que se refere à realidade brasileira, principalmente a partir do legado gramsciano, com outras categorias como revolução passiva, transformismo, bloco histórico, guerra de posição, entre outros.

Entre outros conceitos chaves para Gramsci, destaca-se a questão da hegemonia, e isso envolve relações de força e consenso, entre a sociedade civil e o Estado coerção, que são mais uma separação didática do que concreta na realidade.


As duas funções estatais, de hegemonia ou consenso e de dominação ou coerção, existem em qualquer forma de Estado moderno, mas o fato de que um Estado seja menos coercitivo e mais consensual (ou que se imponha menos pela dominação e mais pela hegemonia) ou vice-versa, isso irá depender sobretudo do grau de autonomia relativa das esferas, bem como da predominância no Estado em questão dos aparelhos pertencentes a uma ou a outra. E essa predominância, por sua vez, depende não apenas do grau de socialização da política alcançado pela sociedade em tela, mas também da correlação de forças entre as classes que disputam a “supremacia” (Coutinho, 2008, p. 57)

De todo modo, se o Estado se ampliou no século XX e XXI, poderíamos permanecer com as mesmas análises do século XIX? Metodologicamente, seria um equívoco. Politicamente, uma derrota. Creio, que essa foi a mensagem principal desse ensaio para o marxismo, principalmente o “marxismo-leninismo”.

Concluindo com uma citação polêmica:

Se as condições mudaram na guerra entre povos, não mudaram menos para a luta de classe. Passou o tempo dos golpes de surpresa, das revoluções executadas por pequenas minorias conscientes à frente das massas inconscientes. Onde quer que se trate de transformar completamente a organização da sociedade, cumpre que as próprias massas nisso cooperem, que já tenham elas próprias compreendido de que se trata, o motivo pelo qual dão seu sangue e sua vida. Mas para que as massas compreendam o que é necessário fazer é preciso um trabalho longo e perseverante (Engels apud Coutinho, p. 26)




1 Ver: Meneses, Jaldes. Carlos Nelson Coutinho: hegemonia como contrato. Serv. Soc. Soc.[online]. 2013, n.116, pp. 675-699. ISSN 0101-6628.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-66282013000400006. 


Cite esta resenha:

GALDINO, S. B. Carlos Nelson Coutinho: a dualidade de poderes (resenha crítica). Disponível em: < http://plaggiado.blogspot.com.br/2015/01/carlos-nelson-coutinho-dualidade-de.html >. Acesso em xdia x mês x ano.

sábado, fevereiro 26, 2011

O MANIFESTO COMUNISTA EM CORDEL

Os economistas, filósofos e socialistas alemães Karl Marx e Frederich Engels tem, pela primeira vez, suas idéias lançadas em poemas de cordel pelo poeta popular cearense Antônio Queiroz de França.

Em 1844, Marx conheceu em Paris Friedrich Engels, começo de uma amizade íntima durante a vida toda. Foi, no ano seguinte, expulso da França, radicando-se em Bruxelas e participando de organizações clandestinas de operários e exilados.

Ao mesmo tempo em que na França estourou a revolução, em 24 de fevereiro de 1848, Marx e Engels publicaram o folheto "O Manifesto Comunista", primeiro esboço da teoria revolucionária que, mais tarde, seria chamada marxista. Agora sua versão em cordel contitui-se em um marco na Literatura Brasileira.

O lançamento é da Editora Tupynanquim, do Ceará, em parceria com a Associação dos Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará - Aestrofe. "O Manifesto Comunista em Cordel" está sendo lançado, neste momento, na Bienal do Livro de Natal, Rio Grande do Norte, que termina nesta sexta-feira.

Antônio Queiroz de França nasceu no dia 22 de junho de 1948 em Jaguaretama (Ceará), é autodidata e mora em Maracanaú (Ceará) desde 1972.

Em 2003, teve um cordel de sua autoria classificado no II Concurso Paulista de Literatura de Cordel.

É um dos diretores da Sopoema - Sociedade dos Poetas e Escritores e Folheteiros do Estado do Ceará.

Além deste folheto, já publicou os seguintes títulos: "Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos" (em parceria com o poeta Rouxinol do Rinaré), "A História da Heroína Olga Benário", "Luiz Carlos Prestes - O Cavaleiro da Esperança", "As aventuras do guerrilheiro Che Guevara", dentre outros.

Trechos de "O Manifesto Comunista em Cordel":

Pensadores, sociólogos,
Cientistas sociaisi
Preocupem-se com o Homem
Este "rei dos animais"
Que cultiva o egoísmo,
Da ética não lembra mais.

Devido à desigualdade
Estudam a economia
E chegaram à conclusão
Que a poucos privilegia
Sem o mínimo pra ter vida
Sofre a grande maioria.

Fizeram a divisão
Após "estudos profundos":
"Primeiro mundo" dos ricos,
"Terceiro" dos moribundos.
Os pobres escravizados
Por burgueses dos dois mundos.

Um grande gênio alemão
E um outro camarada
Prepararam uma tese
Da humanidade estudada
E descobriram a causa
Da fome verificada.

Foi de Karl Marx e Engels
A grande ação humanista
Quando lançaram ao mundo
O Manifesto Comunista,
Dizendo que nosso grito
Necessita ser conquista.

Em mil e oitocentos e
Quarenta e sete emitiram
Na liga dos comunistas
Em congresso decidiram,
O Manifesto dos pobres
Marx e Engels redigiram.

Feito de forma eclética
Une anticapitalistas
Da grande Liga Operária
Os quais eram comunistas
Que faziam um consenso
Com os irmãos anarquistas.

Quando a vida virou luxo
Neste tal Planeta Terra
Onde poucos vivem bem.
Pra se manter fazem guerra
Sobre muitos que produzem
Nova escravidão se encerra.

Gera insensibilidade
Em todos desde a infância:
Nos ricos por vaidade,
É causada por ganância;
Nos pobres pela miséria,
A causa é ignorância.

Sobre os nossos ombros pesa
A responsabilidade
Entre o nosso segmento
Com solidariedade.

O Partido Comunista
Já começa a progredir
E os vários movimentos
Resolveram se unir,
Para vil exploração,
Neste planeta, abolir.

Várias correntes de idéias,
Movimentos Sociais,
Havia, entre operários
E entre intelectuais.
Depois deste Manifesto
Tornaram-se consensuais.

O movimento operário
Chamava-se comunista,
Dos intelectuais
Era o socialista.
Afora outro que havia
Chamado de anarquista.

Dizem no Manifesto
Que existia um fantasma
Rondando toda a Europa
(De medo o Estado pasma),
Que prometia dá fim,
Entre nós, num cataplasma.

Karl Marx conclama a todos
Para entrarem em ação
Unindo os trabalhadores
Sem destinção de nação
Para o fantasma passar
Á materialização.

[...]

Queremos, nós comunistas
É promover o respeito
Pondo fim na hipocrisia,
Irmandade é o nosso pleito,
Nas relações sociais,
Terá um novo conceito.

Inventaram que os comunistas
A pátria destruirão.
Operários não tem pátria
Vivendo em submissão,
Escravos da burguesia
Que domina com opressão.

Tomar o poder político
E ter a dominação,
Esse é o objetivo
Da nossa revolução.
Como somos maioria,
Somos a própria nação.

Todos os antagonismos
Não sobreviverão mais.
E o Estado socialista
Não tem marcos nacionais,
Nem as discriminações
De sexo e raciais.

[...]

O Manifesto Comunista
Em cordel
Antônio Queiroz de França

sexta-feira, setembro 10, 2010

As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo



V. I. Lénine
Março de 1913

Primeira Edição: Prosvechtchénie, nº 3, Março de 1913. Assinado: V. I.
Fonte: Obras Completas de V.I. Lénine, 5. ed. em russo, t. 23, pp. 40 - 48.
Transcrito por Fred Leite Siqueira Campos para The Marxists Internet Archive.
HTML por Jørn Andersen para Marxists' Internet Archive, 26.7.00.

A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.
Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao "sectarismo", no sentida de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua doutrina surgiu como a continuação direta e imediata das doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da economia política e do socialismo.
A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a superstição, com toda a reação, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.
Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.
I
A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história moderna da Europa, e especialmente em fins do século XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia conseqüente, fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à superstição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia tentavam com todas as suas forças "refutar", desacreditar e caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião.
Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram repetidas vezes quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Dübring, as quais - da mesma forma que o Manifesto Comunista - são os livros de cabeceira de todo o operário consciente.
Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, o qual conduzira por sua vez ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das ciências naturais - o rádio, os elétrons, a transformação dos elementos - confirmaram de maneira admirável o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses, com os seus "novos" regressos ao velho e podre idealismo.
Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx é uma conquista formidável do pensamento científico. Ao caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções da história e da política, sucedeu uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.
Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, isto é, a matéria em desenvolvimento, também o conhecimento social do homem (ou seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a base econômica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado.
A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operaria sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.
II
Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se principalmente ao estudo deste regime econômico. A obra principal de Marx, O Capital, é dedicada ao estudo do regime econômico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista.
A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardo lançaram nas suas investigações do regime econômico os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.
Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos (troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita, unindo indissoluvelmente num todo a vida econômica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.
A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria econômica de Marx.
O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário, arruína o pequeno patrão e cria um exercito de desempregados. Na indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção; mas também na agricultura deparamos com o mesmo fenômeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio é um fato indiscutível.
Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social - centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo econômico coordenado - enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população.
Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.
Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas formas superiores, até à grande produção.
E de ano para ano a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um numero cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx.
O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.
III
Quando o regime feudal foi derrubado e a "livre" sociedade capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que essa liberdade representava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir diversas doutrinas socialistas. Mas, o socialismo primitivo era um socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a, amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da exploração.
Mas, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento, nem encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova sociedade.
Entretanto, as tempestuosas revoluções que acompanharam em toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo, da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento.
Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas classes da sociedade capitalista.
O gênio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado conseqüentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.
Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam - e, pela sua situação social, devam - formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.
Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as classes oprimidas. Só a teoria econômica de Marx explicou a situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista.
No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Este se educa e instrui-se travando a sua luta de classe; liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos, temperam as suas forças e cresce irresistivelmente.

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quarta-feira, julho 01, 2015

5 coisas que você precisa saber sobre Karl Marx e o marxismo!


Karl Marx (1818-1883) é um dos mais expressivos filósofos do mundo. O que ele tem de expressivo e de uma enorme contribuição, tem de distorções de sua teoria e de sua obra monumental.

Leia mais em: 132 anos sem Karl Marx... um homem que mudou o mundo e entrou para a história


Shellen Galdino*
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"Durante o século XX, nas chamadas ‘sociedades democráticas’, ninguém teve seus direitos civis ou políticos limitados por ser durkheimiano ou weberiano – mas milhares de homens e mulheres, cientistas sociais ou não, foram perseguidos, presos, torturados, desterrados e até mesmo assassinados por serem marxistas". 

José Paulo Netto


De democrata humanista à revolucionário, o conjunto das obras de Karl Marx é de um impressionante arsenal teórico.



1. Marx, ou espírito do Mundo?!

Marx queria seguir a carreira acadêmica, porém isto não foi concretizado pela perseguição que ocorreu aos seguidores de Hegel na então universidade. Mas mesmo assim, se doutorou em filosofia.
Mas Karl Marx não entrou na história como filósofo, nem tão pouco como economista, sociólogo, cientista político, jornalista ou algo do tipo, Marx entrou para a história como revolucionário.

Marx ao doutourar-se (equivalente a graduação), conseguiu um emprego como jornalista em um jornal pequeno-burguês chamado A Gazeta Renana. Foi essa, sua única profissão, a de jornalista. Quando os conflitos começaram a fazer parte do cotidiano da Renania, Marx se deparou com uma realidade complexa, e viu-se com elementos insuficientes para compreender a realidade: seu estudo filosófico não dava conta dos conflitos entre sociedade civil e Estado. 


Assim, Marx recorre ao maior pensador da época que estuda o Estado e a sociedade civil. E é no idealismo de Hegel que Marx busca as respostas para compreender a realidade.

Mas, é com Engels que Karl Marx tem o primeiro acesso a uma crítica da economia política. A partir do contato com a economia política clássica, Marx encontra um dos pilares fundamentais de sua obra: o valor produzido pelo trabalho, que a partir da exploração, produz mais-valia que é apropriada pela classe burguesa.

Quem sofre essa exploração? Os trabalhadores ou os proletariados, que para Marx são o novo sujeito revolucionário, como fora a classe burguesa em outrora. Com a marca dos mais explorados, os trabalhadores podem libertar a si mesmo e toda a humanidade.

Neste sentido, Marx se aproxima das lutas dos trabalhadores na época, transformando assim sua obra numa espécia de guia para a transformação social e superação das desigualdades de classe. Marx e Engels se aproximam e fundam a Internacional Comunista, onde como manifesto, surge um dos livros mais conhecidos do mundo: o manifesto do partido comunista, em 1848.

Fora esta obra, Marx possui diversas obras, alguns manuscritos e outros artigos, como a Ideologia Alemã, Sobre a questão judaíca, o 18 de brumário, os Manuscristos econômicos e filosóficos... mas a principal obra de Marx ele demorou 15 anos para escrever: O Capital, volume I.


Marx dedicou a sua vida para compreender a sociedade burguesa, a sociedade do capital. Grande parte de suas análises do sistema capitalista ajudaram a compreender o mundo e são até hoje atuais, embora algumas, pelo passar dos anos se complexificaram ou desapareçam, daí a magnitude de sua obra.


2. Marx não é marxismo. Marxismo não é Marx

Vale lembrar que como Buda não era Budista, Marx não era marxista, e pelo contrário, nem gostava dessa "idolatria".

Podemos dividir de forma didática da seguinte maneira:

  • Teoria marxiana: obra realmente referente a Karl Marx, e em certa medida ao Engels.
  • Marxismo, ou melhor, tradição marxista: aqueles que se identificam com o método e construção teórica de Marx, e que em certa medida acrescenta, retiram e modificam a obra de Marx.

Assim, podemos dizer que teoria marxiana é a teoria do próprio Marx, e que o marxismo ou tradição marxista é um projeto teórico que abarca diversos homens, produto de intervenção intelectual e política, e se tratando assim de uma ampla diversidade, sendo correto afirmar que existem Marxismos, no plural. Que pode ser de Gramsci a Lukács, de Althusser a Poulantzas, de Carlos Nelson Coutinho a Florestan Fernandes, de Harvey a Michel Lowy... só essa lista já demonstra a pluralidade dessa corrente teórica.


3. Karl Marx pertence a chamada razão moderna, na crítica

Hoje (e não só hoje) temos muitas polêmicas no tocante as duas vertentes que disputam a direção do conhecimento: modernidade e pós-modernidade.

Assim, Marx pertence a um conjunto de intelectuais que são inspirados, de certa forma, pelo Iluminismo, pela razão, pelo humanismo e pela emancipação humana através dela mesma, diferente de um período anterior que de certa forma coloca essa salvação nas mãos de Deus.

Mas mesmo pertecendo a esse meio, Marx não faz um culto ou uma celebração a modernidade e ao capitalismo. Na verdade, Marx é um divisor de águas, quando de forma crítica se mantém no pensamento moderno. Assim, o pensamento marxista se trata de uma das expressões do pensamento moderno, e trata-se assim da perspectiva CRÍTICA, a que propõe uma superação desses moldes.

Por isso, de certa forma, os autores pós-modernos fazem uma crítica ao marxismo. O que a meu ver é um equívoco, pois colocam no mesmo julgo o marxismo e a razão instrumental e o positivismo.


4. A ortodoxia do método

O método é um pilar fundamental do marxismo. Um dos maiores marxistas do século XX, o húngaro Lukács, afirma que o método é na verdade a única "ortodoxia". Assim, por isso alguns pontos vistos por Marx podem ser revistos, se a partir do método. Lukács afirma:

"A ortodoxia em matéria de marxismo se reduz exclusivamente ao método." (Lukács, 1967)

Marx, diferente de alguns autores posteriores, não elencou uma série de regras metodológicas, porque via nisso uma forma de engessar a criação e ocultar a essência do real. Para ele:

"Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano, sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento[...] é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado." (MARX, 1968).


O espírito do legado de Marx consistia, nos termos de Vladimir Lenin, em uma “análise concreta de uma situação concreta”. Não interessava elaborar uma ciência da lógica, e sim a lógica de um objeto determinado. Descobrir esta lógica consiste em reproduzir idealmente (teoricamente) a estrutura e a dinâmica deste objeto.




5. Da filosofia à crítica da economia política

Diferente do que alguns possam afirmar, Marx não partiu do nada. Ele fez o que se faz para ser um bom intelectual: subiu no ombro dos gigantes. Assim, Marx se apropriou de todo o conhecimento gerado na sua época, inclusive literatura (ele lia bastante Goethe e Shaekspeare).

Assim, o mesmo avança criticamente a partir do conhecimento acumulado, Marx empreendeu a análise da sociedade burguesa, com o objetivo de descobrir a sua estrutura e a sua dinâmica, principalmente a partir desses pilares:

1. Economia Politica inglesa (Adam Smith, David Ricardo etc)
2. Socialismo utópico (Robert Owen, Fourier, Saint Simon etc)
3. Filosofia clássica alemã (Hegel, Kant etc)
4. Teoria da luta de classes burguesa (teóricos inspirados em 1789, a revolução francesa)

As formulações teórico-metodológicas iniciais de Marx, por volta dos anos 1840, aproximam-se ao materialismo – devidas à influência de Feuerbach; e começam a surgir críticas à filosofia  de Hegel. No decorrer do ano de 1844, é quando começa a se deslocar da crítica filosófica para a crítica da economia política e suas ideias ganham crescente elaboração.


*Shellen Galdino é Assistente Social e mestranda em Serviço Social na UFPB.

domingo, junho 14, 2015

Che Guevara: a imagem mais vista do mundo (14/06/1928 - 09/10/1967)

Ernesto Guevara de la Serna, conhecido como "Che" Guevara 
é com certeza umas das figuras mais conhecidas do século XX. O rosto do revolucionário e guerrilheiro argentino radicado em Cuba é a imagem mais vista, mais popular e conhecida do mundo, ao lado do de Jesus Cristo.




A marca do rosto de Che não é de uma cerveja, nem de uma empresa qualquer, mas da ousadia da juventude. É uma imagem que transcende fronteiras, gerações, partido, que transcende o próprio marketing. Como diz Emir Sader, qual gênio da publicidade poderia reinventar tal fenômeno?



O jovem médico e aventureiro que sai de moto da Argentina (ver o filme Diário de motocicleta) não ficou conhecido todavia por seu exercício profissional, mas sim como um guerrilheiro revolucionário, que ao lado de Fidel Castro derrubou a ditadura cubana de Batista e transformou a ilha a partir das ideias socialistas e revolucionárias:



"Sonha e serás livre de espírito...
luta e serás livre na vida."







Che virou um mito, e antes de ser mito, chegou a ser dirigente do Estado cubano e morreu lutando nas selvas bolivianas. O jovem argentino, quando na sua porta bate a Política, não tem mais como fugir... Ser apenas um médico e aventureiro não contemplava mais seus anseios, e assim, as experiências da Guatemala, Venezuela e México foram fundamentais.


"Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros."






Uma personsagem fundamental para o pensamento de Che Guevara e pouco citada ou conhecida, é sua esposa Hilda Gadea, com quem se casou e 1955. A mesma tinha uma formação marxista muito mais desenvolvida que a de Che, e assim o influenciou bastante a seguir este caminho.


Assim, a partir da guerrilha de Sierra Maestra é forjado a liderança de um revolucionário que não se contentou apenas com as mudanças em Cuba, e buscou ir em diversos outros países na esperança da guerra de guerrilhas na libertação do povo.




"Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira."





Além da vida agitada, da esperança na guera de guerrilhas apoiado pelo povo e na convicção que a juventude é revolucionaria, Che também é o portador mais emblemático do Humanismo revolucionário:


"Deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor..." ("O socialismo e o homem em Cuba)





Em seu pensamento é constante a preocupação com a formação do novo homem e da nova mulher, ou seja, da nova moral, um novo modo de ser, pensar e agir. Isso com certeza traz as dificuldades de se pensar os dilemas de se construir um mundo novo com o homem do mundo velho, e ele mesmo afirma "A nova sociedade em formação tem de competir muito duramente com o passado..."


Assim, se morrem os homens e a matérias e as ideias permanecem, Che Guevara é sem dúvidas um dos maiores exemplos disso da nossa história. E, como lembra o próprio Che Guevara, o guerrilheiro não está em luta para morrer por seus ideais, mas sim, torná-los realidade.

Minha singela homenagem a Che.
Hasta la victoria, siempre.

domingo, janeiro 11, 2015

Carlos Nelson Coutinho | A dualidade de Poderes

SOBRE O AUTOR

Carlos Nelson Coutinho foi um importante intelectual e ensaísta brasileiro. O mesmo nasceu na Bahia, no ano de 1943. O mesmo concluiu o curso de bacharelado em filosofia pela Universidade Federal da Bahia esse tornou depois professor de livre-docência na Universidade Federal do Rio de Janeiro, estado e se, que ganhou o coração do baiano. Ministrou ao longo de sua carreira cursos de Teoria Política e Formação Social do Brasil, principal no programa de pós-graduação em Serviço Social da UFRJ.

O marxista polêmico, se consagrou através de seus pertinentes ensaios, principalmente através dos estudos do italiano e comunista Antônio Gramsci, sendo um de seus principais tradutores e interpretes no Brasil.

Carlos Nelson, ao sempre trazer uma forma inovadora e crítica do marxismo (sem deixar de ser segundo ele ortodoxo) inovou o pensamento marxista brasileiro, ao lado de diversos outros intelectuais. A sua prioridade era pois, a discussão do marxismo e da política. Pois, segundo o mesmo, trata essa de uma esfera importante da luta de classes, inclusive por sua relativa autonomia.

Além de trazer a forma crítica, propositiva e inovadora do marxismo-gramsciano ao Brasil, sempre aliando esses estudos a proposta luckácsiana, abriu novos caminhos para o pensamento e a teoria social de Marx, assim como, o que ele sempre lembrava, a necessária compreensão do método em sua ortodoxia, mesmo compreendendo o marxismo como uma obra em aberto, e daí, sua atualidade. E o ainda, com pitadas de Poulantzas, além de Marx e Engels, claro.

E não pouco, Carlos Nelson Coutinho trouxe para o marxismo brasileiro a importante tarefa de discutir enfaticamente o que ele chamava de “questão democrática”, no qual ele lucidamente considerava a democracia como valor historicamente universal. Um tema polêmico, e até hoje deixado a revelia por parte da intelectualidade marxista, talvez, por erros metodológicos, e ora, por erros políticos.

Entre suas notáveis obras, destaca-se Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político (1989), Cultura e sociedade no Brasil (1990), Democracia e socialismo: questões de princípios & contexto brasileiro (1992), Estruturalismo e a miséria da razão e Marxismo e politica, em que sem encontra o ensaio aqui estudado, a dualidade de poderes.

No ensaio referido no título, Carlos Nelson traz importantes categorias de análise para a sua necessária renovação (sendo, nas palavras do autor, indissoluvelmente conservação, eliminação e renovação), o que, segundo o autor, Hegel buscou definir pela expressão Aufhebung. Entre elas, nesse ensaio, destaca-se Estado e Revolução, e seus principais conceitos, e a articulação com a questão da transição.

No mais, perdemos esse grande interlocutor, no recente ano de 2012. Segundo Gramsci, vale a pena viver quando se é comunista. Para Carlos Nelson valeu, deixou o seu melhor, um legado e uma história. As ideias nunca morrem, não por acaso, permanece o legado da “hegemonia como contrato”, um projeto, que Jaldes Meneses (2012) entre outros chamaram de “audacioso”, e, não há como negar tal fato. Viva a audácia, ela não nos permite o esquecimento.


SÍNTESE DO ENSAIO

A centralidade do ensaio "A dualidade de poderes" é realizar um “Estado da Arte” sobre a dualidade dos poderes, desde Marx e Engels, passando por Lenin e Trotski, até Gramsci, Togliati e Poulantzas, passando também pelo marxismo austríaco (austro-marxismo).

O objetivo do autor é demostrar como concretamente o Estado se ampliou, e assim as concepções também devem se ampliar, sendo na concepção do mesmo a escola gramsciana e mais precisamente as contribuições de Nicos Poulantzas fundamentais para essa compreensão de Estado, e assim, em consequência de uma estratégia revolucionária condizente com essa ampliação concreta de Estado.

Conforme Poulantzas:


O Estado […] não deve ser considerado uma entidade em si, mas - do mesmo modo como, de resto, deve ser feito com o 'capital' – como uma relação; mais exatamente, como a condensação material de uma correlação de forças entre classes e frações de classe, tal como essa se expressa, sempre de modo específico, no seio do Estado. (Poulantzas, 1978 apud Coutinho, 2008, p. 65)

Assim, em resumo o mesmo coloca a problemática da conservação x renovação na transição, ou seja, do papel da dualidade de poderes. Para isso, o autor coloca as duas principais concepções de Estado e Revolução no pensamento marxista. Assim, a forma de conceber o Estado teria em suma concepções mais “restritas” ou “amplas”, e disso partiria a elaboração de diferentes paradigmas de revolução socialista, respectivamente “explosiva” e “processual”.

Está também na questão do debate o papel da democracia na construção do socialismo, desde que se analise e tenha como central a ortodoxia do método em Marx e os próprios limites do liberalismo, e esse movimento deve ser constante de superações dialéticas.

Assim, podemos dizer que a concepção de Carlos Nelson Coutinho, é de que existe a possibilidade de “Dualidade de Poderes”, essa entendida como um misto de democracia representativa e democracia direta, para chegada ao socialismo, tendo em vista a ampliação do Estado e uma concepção processual da Revolução.

O debate central das possibilidades da Dualidade de Poderes em sociedade do tipo “ocidental”, também sustenta a tese do autor de Democracia como valor historicamente universal. E, de uma hipótese, de hegemonia como contrato.1

Assim, o polêmico intelectual brasileiro, dá uma enorme e polêmica contribuição para superação dialética marxiana de análise da realidade, principalmente na análise no que se refere à realidade brasileira, principalmente a partir do legado gramsciano, com outras categorias como revolução passiva, transformismo, bloco histórico, guerra de posição, entre outros.

Entre outros conceitos chaves para Gramsci, destaca-se a questão da hegemonia, e isso envolve relações de força e consenso, entre a sociedade civil e o Estado coerção, que são mais uma separação didática do que concreta na realidade.


As duas funções estatais, de hegemonia ou consenso e de dominação ou coerção, existem em qualquer forma de Estado moderno, mas o fato de que um Estado seja menos coercitivo e mais consensual (ou que se imponha menos pela dominação e mais pela hegemonia) ou vice-versa, isso irá depender sobretudo do grau de autonomia relativa das esferas, bem como da predominância no Estado em questão dos aparelhos pertencentes a uma ou a outra. E essa predominância, por sua vez, depende não apenas do grau de socialização da política alcançado pela sociedade em tela, mas também da correlação de forças entre as classes que disputam a “supremacia” (Coutinho, 2008, p. 57)

De todo modo, se o Estado se ampliou no século XX e XXI, poderíamos permanecer com as mesmas análises do século XIX? Metodologicamente, seria um equívoco. Politicamente, uma derrota. Creio, que essa foi a mensagem principal desse ensaio para o marxismo, principalmente o “marxismo-leninismo”.

Concluindo com uma citação polêmica:

Se as condições mudaram na guerra entre povos, não mudaram menos para a luta de classe. Passou o tempo dos golpes de surpresa, das revoluções executadas por pequenas minorias conscientes à frente das massas inconscientes. Onde quer que se trate de transformar completamente a organização da sociedade, cumpre que as próprias massas nisso cooperem, que já tenham elas próprias compreendido de que se trata, o motivo pelo qual dão seu sangue e sua vida. Mas para que as massas compreendam o que é necessário fazer é preciso um trabalho longo e perseverante (Engels apud Coutinho, p. 26)




1 Ver: Meneses, Jaldes. Carlos Nelson Coutinho: hegemonia como contrato. Serv. Soc. Soc.[online]. 2013, n.116, pp. 675-699. ISSN 0101-6628.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-66282013000400006. 


Cite esta resenha:

GALDINO, S. B. Carlos Nelson Coutinho: a dualidade de poderes (resenha crítica). Disponível em: < http://plaggiado.blogspot.com.br/2015/01/carlos-nelson-coutinho-dualidade-de.html >. Acesso em xdia x mês x ano.

sábado, fevereiro 26, 2011

O MANIFESTO COMUNISTA EM CORDEL

Os economistas, filósofos e socialistas alemães Karl Marx e Frederich Engels tem, pela primeira vez, suas idéias lançadas em poemas de cordel pelo poeta popular cearense Antônio Queiroz de França.

Em 1844, Marx conheceu em Paris Friedrich Engels, começo de uma amizade íntima durante a vida toda. Foi, no ano seguinte, expulso da França, radicando-se em Bruxelas e participando de organizações clandestinas de operários e exilados.

Ao mesmo tempo em que na França estourou a revolução, em 24 de fevereiro de 1848, Marx e Engels publicaram o folheto "O Manifesto Comunista", primeiro esboço da teoria revolucionária que, mais tarde, seria chamada marxista. Agora sua versão em cordel contitui-se em um marco na Literatura Brasileira.

O lançamento é da Editora Tupynanquim, do Ceará, em parceria com a Associação dos Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará - Aestrofe. "O Manifesto Comunista em Cordel" está sendo lançado, neste momento, na Bienal do Livro de Natal, Rio Grande do Norte, que termina nesta sexta-feira.

Antônio Queiroz de França nasceu no dia 22 de junho de 1948 em Jaguaretama (Ceará), é autodidata e mora em Maracanaú (Ceará) desde 1972.

Em 2003, teve um cordel de sua autoria classificado no II Concurso Paulista de Literatura de Cordel.

É um dos diretores da Sopoema - Sociedade dos Poetas e Escritores e Folheteiros do Estado do Ceará.

Além deste folheto, já publicou os seguintes títulos: "Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos" (em parceria com o poeta Rouxinol do Rinaré), "A História da Heroína Olga Benário", "Luiz Carlos Prestes - O Cavaleiro da Esperança", "As aventuras do guerrilheiro Che Guevara", dentre outros.

Trechos de "O Manifesto Comunista em Cordel":

Pensadores, sociólogos,
Cientistas sociaisi
Preocupem-se com o Homem
Este "rei dos animais"
Que cultiva o egoísmo,
Da ética não lembra mais.

Devido à desigualdade
Estudam a economia
E chegaram à conclusão
Que a poucos privilegia
Sem o mínimo pra ter vida
Sofre a grande maioria.

Fizeram a divisão
Após "estudos profundos":
"Primeiro mundo" dos ricos,
"Terceiro" dos moribundos.
Os pobres escravizados
Por burgueses dos dois mundos.

Um grande gênio alemão
E um outro camarada
Prepararam uma tese
Da humanidade estudada
E descobriram a causa
Da fome verificada.

Foi de Karl Marx e Engels
A grande ação humanista
Quando lançaram ao mundo
O Manifesto Comunista,
Dizendo que nosso grito
Necessita ser conquista.

Em mil e oitocentos e
Quarenta e sete emitiram
Na liga dos comunistas
Em congresso decidiram,
O Manifesto dos pobres
Marx e Engels redigiram.

Feito de forma eclética
Une anticapitalistas
Da grande Liga Operária
Os quais eram comunistas
Que faziam um consenso
Com os irmãos anarquistas.

Quando a vida virou luxo
Neste tal Planeta Terra
Onde poucos vivem bem.
Pra se manter fazem guerra
Sobre muitos que produzem
Nova escravidão se encerra.

Gera insensibilidade
Em todos desde a infância:
Nos ricos por vaidade,
É causada por ganância;
Nos pobres pela miséria,
A causa é ignorância.

Sobre os nossos ombros pesa
A responsabilidade
Entre o nosso segmento
Com solidariedade.

O Partido Comunista
Já começa a progredir
E os vários movimentos
Resolveram se unir,
Para vil exploração,
Neste planeta, abolir.

Várias correntes de idéias,
Movimentos Sociais,
Havia, entre operários
E entre intelectuais.
Depois deste Manifesto
Tornaram-se consensuais.

O movimento operário
Chamava-se comunista,
Dos intelectuais
Era o socialista.
Afora outro que havia
Chamado de anarquista.

Dizem no Manifesto
Que existia um fantasma
Rondando toda a Europa
(De medo o Estado pasma),
Que prometia dá fim,
Entre nós, num cataplasma.

Karl Marx conclama a todos
Para entrarem em ação
Unindo os trabalhadores
Sem destinção de nação
Para o fantasma passar
Á materialização.

[...]

Queremos, nós comunistas
É promover o respeito
Pondo fim na hipocrisia,
Irmandade é o nosso pleito,
Nas relações sociais,
Terá um novo conceito.

Inventaram que os comunistas
A pátria destruirão.
Operários não tem pátria
Vivendo em submissão,
Escravos da burguesia
Que domina com opressão.

Tomar o poder político
E ter a dominação,
Esse é o objetivo
Da nossa revolução.
Como somos maioria,
Somos a própria nação.

Todos os antagonismos
Não sobreviverão mais.
E o Estado socialista
Não tem marcos nacionais,
Nem as discriminações
De sexo e raciais.

[...]

O Manifesto Comunista
Em cordel
Antônio Queiroz de França

sexta-feira, setembro 10, 2010

As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo



V. I. Lénine
Março de 1913

Primeira Edição: Prosvechtchénie, nº 3, Março de 1913. Assinado: V. I.
Fonte: Obras Completas de V.I. Lénine, 5. ed. em russo, t. 23, pp. 40 - 48.
Transcrito por Fred Leite Siqueira Campos para The Marxists Internet Archive.
HTML por Jørn Andersen para Marxists' Internet Archive, 26.7.00.

A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.
Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao "sectarismo", no sentida de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua doutrina surgiu como a continuação direta e imediata das doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da economia política e do socialismo.
A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a superstição, com toda a reação, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.
Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.
I
A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história moderna da Europa, e especialmente em fins do século XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia conseqüente, fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à superstição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia tentavam com todas as suas forças "refutar", desacreditar e caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião.
Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram repetidas vezes quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Dübring, as quais - da mesma forma que o Manifesto Comunista - são os livros de cabeceira de todo o operário consciente.
Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, o qual conduzira por sua vez ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das ciências naturais - o rádio, os elétrons, a transformação dos elementos - confirmaram de maneira admirável o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses, com os seus "novos" regressos ao velho e podre idealismo.
Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx é uma conquista formidável do pensamento científico. Ao caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções da história e da política, sucedeu uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.
Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, isto é, a matéria em desenvolvimento, também o conhecimento social do homem (ou seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a base econômica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado.
A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operaria sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.
II
Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se principalmente ao estudo deste regime econômico. A obra principal de Marx, O Capital, é dedicada ao estudo do regime econômico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista.
A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardo lançaram nas suas investigações do regime econômico os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.
Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos (troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita, unindo indissoluvelmente num todo a vida econômica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.
A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria econômica de Marx.
O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário, arruína o pequeno patrão e cria um exercito de desempregados. Na indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção; mas também na agricultura deparamos com o mesmo fenômeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio é um fato indiscutível.
Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social - centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo econômico coordenado - enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população.
Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.
Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas formas superiores, até à grande produção.
E de ano para ano a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um numero cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx.
O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.
III
Quando o regime feudal foi derrubado e a "livre" sociedade capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que essa liberdade representava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir diversas doutrinas socialistas. Mas, o socialismo primitivo era um socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a, amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da exploração.
Mas, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento, nem encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova sociedade.
Entretanto, as tempestuosas revoluções que acompanharam em toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo, da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento.
Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas classes da sociedade capitalista.
O gênio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado conseqüentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.
Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam - e, pela sua situação social, devam - formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.
Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as classes oprimidas. Só a teoria econômica de Marx explicou a situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista.
No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Este se educa e instrui-se travando a sua luta de classe; liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos, temperam as suas forças e cresce irresistivelmente.