Com um forte processo de individualização da vida, as pessoas cada vez mais se relacionam de forma frágil e descartável. Vivemos os desejos do hoje, e queremos satisfazê-los de forma instantânea, que nem o miojo que cozinha em 3 minutos, ou que nem a facilidade do cartão de crédito, e assim vamos agindo, e nos relacionando via impulso.
O que queremos do outro é simplesmente absorver, consumir, devorar, digerir e por fim ANIQUILAR, afinal, quando não me for mais "conveniente", o que fazer com o objeto? Afinal, somos seres descartáveis.
Nessa sociedade, qualquer tipo de relacionamento é comparado a um "investimento", no sentido mais sombrio e perverso do termo. Tem que tudo dar certo, ou seja dar lucro! Tem que analisar as "condições objetivas", principalmente se envolver tempo, dinheiro, filhos... Você "gasta tempo" e tudo mais, e quer retorno dos seus "investimentos", e melhor será se der errado, o que você investiu seja devolvido, como uma coisa qualquer do mercado, desde que se tenha a nota fiscal da mercadoria.
Nas palavras do próprio:
"Você compra ações e as mantém enquanto seu valor promete crescer, e as vende prontamente quando os lucros começam a cair ou outras ações acenam a cair ou outras ações acenam com um rendimento maior (o truque é não deixar passar o momento em que isso ocorre).
Outra coisa importante, que reforça o caráter de individualização da atual sociedade capitalista, é que se formos nós a pessoa em questão, é totalmente normal ver a outra como objeto, agora, não esperamos e nem queremos ser tratados como tal, afinal, para a outra pessoa, podemos ser a mercadoria idem, e ai, o bicho pega!
Mas, com todos os problemas de relações "líquidas", como instabilidade, atração e repulsão, contradições, de forma fluída, dolorosa, rápido e imprevisível, como se tudo isso fosse uma benção ambígua, entre o sonho e o pesadelo, quente e frio, amor e ódio... Talvez não vamos achar uma solução para esse "dilema" a curto prazo... E nem podemos descrer e sentimentos sinceros, confiáveis e verdadeiros.
Não podemos tratar outras pessoas como objetos, se não me agrada mais, eu jogo fora e uso outro... Não somos telas em branco a espera de um pintor para jogar todas suas cores com os mais variados pincéis... Não estamos lidando com acessórios, e sim com pessoas, que tem vida, sentimentos, histórias e se propõe a se relacionar conforme a cultura dessa sociedade nos "impõe" e condiciona.. Porque não aprender a arte do reparo, ao invés da substituição e da troca? Afinal, estamos todos no mesmo barco...
Termino mais uma vez com essa frase tão sintética e coerente:
"Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador."
Ferreira Gullar
Shellen Galdino
Outubro, domingo, primavera de 2012