É o paradoxo das nossas vidas. Nunca tivemos tanta liberdade para moldar nossas vida do modo como queremos, mas nunca estivemos sujeitos a tantas pressões nos dizendo o que é desejável. David Rowan, The Times, 6 de setembro de 2003
Parece estar suficientemente demonstrado que, quando o ocidente abandonou a noção (antes bastante popular) de que a pobreza é uma virtude, foi com a ardente aprovação da Reforma Protestante – e provavelmente por direta inspiração dela. O que ainda não sabemos avaliar são todos os resultados que essa mudança de paradigma lançou futuro adentro. Algumas dessas flechas estão apenas começando a nos atingir; outras já nos atravessaram as pernas e o coração. Mesmo antes da era da mecanização, alguns observadores, avaliando essa formidável transição, olharam com nostalgia para o passado e com temor para o futuro. Hoje em dia discute-se se um mundo que não acredita em Deus irá manter-se abraçado à ética; naquela época discutia-se se um mundo que acredita na ambição e no lucro pode alegar estar abraçado a Deus. Quando a revolução industrial era menos do que uma promessa e a era da informação menos do que um sonho, esses sujeitos enxergavam o que hoje deveria ser visto como lugar-comum: que a ganância, liberta de suas cadeias ancestrais e alimentada pela tecnologia, poderia se mostrar a chave da destruição do mundo e da mais fatal cegueira da história da humanidade. Em seu A Vida de Fausto, de 1791, Friedrich Maximilian Klinger coloca na boca de Satã algumas dessas profecias:
Este é Novalis (1772-1801), escrevendo mais ou menos na mesma época, em seu A Cristandade, ou a Europa:
Acho especialmente relevante e lúcido que esses autores tenham entendido, de seu posto há duzentos anos atrás, de onde não tinham como saber o que hoje sabemos, que o segredo da vitória final da ganância residiria na manipulação das necessidades. Novalis enxergou que necessidades mais complexas requerem mais recursos e mais tempos para serem satisfeitas. O mero tempo necessário para aprendermos a nos tornar “produtivos” e a nos mantermos assim pode estar sequestrando partes muito legítimas da existência – porções e pausas de vida que perdemos inteiramente de vista enquanto corremos atrás do vento. Antes dos engarrafamentos e dos shopping centers, Novalis entreviu que a tarefa de nos tornarmos consumidores eficazes pode estar nos subtraindo o privilégio e a tarefa mais essencial de viver. Klinger olhou ainda mais longe, e na mesma página diz duas vezes que a chave da manipulação e da ruína da humanidade residirá na “criação de necessidades”. Antes da televisão de tela plana e do iPad, ele entendeu que o homem abraçará os pés do diabo para não ter de resistir ao apelo de “novas necessidades”. Essas profecias falam de um momento no futuro em que os homens finalmente dominariam a arte de transformar o que é supérfluo em necessidade. Essa hora, naturalmente, já chegou. Mais do que Novalis jamais poderia sonhar, aprendemos a validar nossa humanidade através daquilo que consumimos. E, numa vertigem que levaria Klinger à loucura, a subsistência dos sistemas do mundo absolutamente depende da criação e da divulgação insaciável de novas necessidades. Até mais ou menos recentemente, a durabilidade de um produto era encarada como valor: os produtos eram feitos e comprados para durar. Esse paradigma, no entanto, não funcionava a serviço de um capitalismo que depende do consumo sem pausa para sobreviver. As indústrias aprenderam não apenas a lançar novos produtos (coisa que fizeram desde o começo), mas a encaixá-los num rigoroso programa de obsolescência programada. Mesmo quando compradas para durar, as coisas passaram a ser feitas para não durar. Hoje em dia um produto apresenta falhas técnicas muito antes do que já foi considerado aceitável, e o custo do conserto e da manutenção se mostra muitas vezes maior do que o custo da aquisição de um produto novo. O verdadeiramente notável nessa equação é que aprendemos a deixar de ficar indignados com isso, devidamente aplacados pelas vantagens anunciadas do novo produto-necessidade. O último estágio da transição de valor do durável para o instantâneo ocorreu quando as indústrias deixaram de ocultar o seu projeto de obsolescência programada e passaram a anunciá-lo aos quatro ventos como evidência de compromisso com a inovação. Hoje não há quem compre um equipamento eletrônico desconhecendo que daqui a um dia ou dois, talvez antes, um equipamento com mais botões estará ocupando o mesmo lugar na estante. Não há quem compre um iPhone 4 sem saber que este ano ainda deve sair o 5. A perspectiva da obsolescência deixou de ser um problema e passou a ser um componente legítimo do produto, um de seus mais irresistíveis atrativos. E, como diz a piada, com esses dez por cento nós vamos vivendo. Os profetas continuam falando e sendo solenemente ignorados, porque ouvi-los seria morder a mão que nos alimenta – ou mais propriamente, seria deixar de morder a mão que estamos consumindo: a nossa própria. Ivan Illich explica além da dúvida que nos tornamos tão habituados às soluções da tecnologia que tornamo cegos ao fato de que estamos sendo aprisionados por elas. As soluções que deveriam tornar a vida mais fácil, bem como a obediente satisfação das necessidades novas e complexas que nos vende o sistema, pouco fizeram além de criar novos problemas, e crônicos. Entre eles estão as chamadas “doenças da opulência”, invenções do nosso sucesso em canalizar o nosso modo de vida de modo a perseguir a prosperidade – coisas como obesidade, depressão, ansiedade, hipertensão e diabetes. Essas novas doenças aplacamos com novos remédios, é claro, porque seria pedir demais que nos rebaixássemos a mudar de vida. Para que o sistema continue rodando, nada nem ninguém – nem nossa própria qualidade de vida nem o esgotamento dos recursos do mundo – deve ser considerado motivo legítimo para atrasarmos o relógio e voltarmos ao ritmo das meras necessidades, as antigas. Onde o supérfluo é visto como necessário, o próprio conceito de necessidade é sequestrado e esvaziado para sempre. Havia uma coisa importante que era necessário eu dizer para concluir, mas dizê-lo neste mundo não faz sentido. Fonte: Bacia das Almas |
quarta-feira, maio 18, 2011
As profecias do homem-consumo e o esvaziamento das necessidades.
quarta-feira, maio 11, 2011
Poema
segunda-feira, maio 09, 2011
Nos 128 anos da morte de Marx.
Em livro publicado no início deste ano pela editora Little, Brown na Inglaterra, sob o título de “Como mudar o mundo” (How to Change de World) o escritor marxista Eric Hobsbawm recupera -- logo em seu primeiro capítulo (Marx, Hoje) – um evento chamado Semana Judaica do Livro realizada em 2007, em Londres, duas semanas antes do dia em que se lembra a morte de Karl Marx, em 14 de março. O tal evento ficava bem perto de onde se localiza a área da capital londrina mais associada à vida do fundador do marxismo: o chamado Round Reading Room (a sala de leitura principal) do Museu Britânico, situado na Great Russell St.
Naquela ocasião, dois diferentes pensadores – Jacques Attali e o próprio Hobsbawm – foram convidados a fazer uma homenagem póstuma em memória de Marx. Em seu texto, o autor argumenta que não se poderia dizer que Marx havia sido coberto de insucessos em 1883, pois seus escritos começavam a causar impacto na Alemanha e especialmente entre os intelectuais russos da época, além de galvanizar um movimento social liderado por seus discípulos que estava em curso no ambiente sindical e trabalhista alemão.
Mas, de fato, havia pouco material disponível que revelasse o trabalho de toda uma vida. Ele escrevera alguns textos brilhantes e o tronco principal de sua mais importante obra, O Capital, texto sobre o qual dedicara os últimos dez anos de sua vida, enfrentando grandes dificuldades.“Que obras?”, perguntou Marx de forma ácida quando um visitante o questionara a respeito de seus trabalhos... relembrou Hobsbawm em sua palestra. O esforço político organizativo mais significativo de Marx desde a débâcle da revolução de 1848, a então chamada Primeira Internacional de 1864—73, havia se desfeito. Além disso, ele não conseguira alcançar uma posição de destaque na vida política e intelectual da Inglaterra, onde havia vivido quase metade de sua vida, como exilado.
E apesar de tudo isso, disse Hobsbawm, que extraordinário sucesso póstumo! Após vinte e cinco anos de sua morte os partidos políticos das classes trabalhadoras européias fundados em seu nome – ou que se diziam inspirados por Marx – conquistaram de 15 a 47% dos votos nos países que adotavam eleições democráticas – com a única exceção da Inglaterra. Depois de 1918, continuou ele, a maior parte destes partidos se tornou partícipe de governos, não apenas partidos de oposição, e permaneceram como tais mesmo após o fim do fascismo, apesar de que muitos deles ansiarem por renegar sua origem... Todos eles ainda mantêm sua organização em funcionamento.
Neste meio tempo, discípulos de Marx criaram grupos revolucionários em países não-democráticos e no terceiro mundo. Passados setenta anos da morte de Marx, um terço da humanidade vivia sob regimes comandados por partidos comunistas que se propunham representar as ideias e aspirações marxistas. Deste terço do planeta, hoje pelo menos 20% ainda se declara socialista, apesar de que os partidos no poder, com algumas exceções, tenham dramaticamente alterado suas políticas – no entendimento de Hobsbawm. Em resumo, diz ele, se algum pensador deixou sua marca indelével no século XX, esta figura foi Marx.
Percorrendo as ruelas do cemitério de Highgate, onde estão depositados os restos mortais de dois filósofos do século dezenove – Karl Marx e Herbert Spencer – nota-se que curiosamente eles estão colocados frente a frente. Quando ambos estavam vivos, Herbert era conhecido como o Aristóteles da sua época, e Karl um sujeito que vivia na periferia de Hampstead à custa dos recursos de um amigo seu... Hoje em dia ninguém sabe que Spencer está enterrado lá, enquanto peregrinos do Japão e da Índia visitam o túmulo de Karl Marx e exilados comunistas iranianos e iraquianos insistem em serem queimados sob sua memória.
Hobsbawn relativiza a pesquisa realizada entre os ouvintes e telespectadores da BBC, a rede pública de informação britânica, que colocou Karl Marx como o maior filósofo de todos os tempos, mas lembrou em seu arrazoado que se colocarmos o nome de Marx na ferramenta de busca do Google, ele permanece com o maior número de referências, apenas superado por Darwin e Einstein, mas muito à frente de Adam Smith e Freud.
O autor do livro lançado, ainda sem tradução para o português, lembrou naquele ato que o grande interesse na obra de Marx, de forma contraditória, ganhou grande impulso recentemente com o desencadeamento da grande crise econômica e financeira a partir do epicentro nos Estados Unidos. Contou, então, que encontrara com George Soros e que este lhe havia perguntado o que pensava sobre Karl Marx. Ao que Hobsbawm – sabedor das profundas diferenças de visão entre ambos – verbalizou uma resposta ambígua qualquer. Soros acabou dizendo, em seguida, que “há 150 anos aquele homem descobriu algo sobre o capitalismo que precisamos levar em conta atualmente”. Logo depois deste fato, Hobsbawm começou a perceber um número crescente de intelectuais que nunca haviam se apresentado como de esquerda fazer referências às obras marxistas. Como Jacques Attali, seu companheiro de seminário naquele dia, autor de obra sobre a vida e o estudo desenvolvido por Marx.
Por fim, Hobsbawm lembrou que o jornal conservador inglês Financial Times, de outubro de 2008, estampou na primeira página o título: Capitalismo em convulsão, não restara dúvidas que Marx voltava à cena pública. Enquanto o capitalismo atravessa uma de suas piores crises desde a década de 1930, ele provoca o reaparecimento de seu pensamento. Por outro lado, segundo o autor, o Marx do século XXI será, certamente, bem diferente do Marx do século XX.
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Presidente nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)
Fonte: http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=5081
terça-feira, maio 03, 2011
O ateísmo lúcido de Lovecraft.
Meu professor de redação H. P. Lovecraft, de quem herdei o vício de abusar de adjetivos, era um ateu convicto, ocasionalmente militante. A mesma convicção materialista que o fez eliminar dos seus contos de terror qualquer traço do sobrenatural levou-o a duvidar de todas as manifestações tradicionais de religião. Sua histórias não são povoadas por vampiros, fantasmas ou assombrações, e pelo mesmo motivo no seu universo não há espaço para Deus ou para intervenções sobrenaturais1. Tudo no cosmos é gerado pelo acaso, e este domado apenas pelas leis cegas da física. No grande contexto do universo, a vida orgânica na terra não passa de “um acidente minúsculo e temporário”, sendo a própria humanidade “um acidente ainda menor e mais temporário”. Essas convicções, mais ou menos populares hoje em dia, estavam longe de serem comuns na década de 1930, a última do autor. Acho particularmente notável, no entanto, que a grande reserva que Lovecraft encontrou para apresentar contra o cristianismo não foi o fato de a fé cristã pressupor um universo sobrenatural que contrariava sua visão de mundo materialista. Sua indignação era ao mesmo tempo mais profunda e mais lúcida2:
E basta este trecho para Lovecraft se mostrar mais agudo e inclemente do que Richard Dawkins ou qualquer outro ateu militante da nova geração. Em particular, Lovecraft enxerga que o cristianismo é uma ameaça para o conceito de raças e nações justamente por propor um ideal elevado demais, um sonho de fraternidade aparentemente impraticável e “totalmente alienígena à natureza humana”. Ao contrário dos ateus militantes contemporâneos, ele sabe avaliar o verdadeiro peso do seu adversário. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça à civilização por ser uma religião como as outras; para Lovecraft, é uma ameaça justamente por não ser uma religião, já que as religiões tendem a apoiar e legitimar o estado de coisas. Para Dawkins o cristianismo é um risco perene porque recusa-se a reconhecer a natureza última da realidade; para Lovecraft, ele é um risco porque sonha teimosamente poder alterá-la. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça por patrocinar a injustiça; para Lovecraft, é uma ameaça por sonhar uma justiça excessiva: por ser uma intransigente ingenuidade e uma declarada insensatez, uma poesia que pode transtornar o mundo se raças e nações não resistirem ao apelo evangélico de conformarem-se a ela. Para Dawkins o escândalo está em, diante de todas as evidências, o cristianismo recusar-se a reconhecer que não há céu; para Lovecraft está em, diante de todas as improbabilidades, o cristianismo insistir em implantá-lo na terra. Dos dois, só Lovecraft sabe do que está falando. Leia também:
Fonte: Bacia das Almas |
domingo, maio 01, 2011
Zizek: “nada está perdido”
Zizek: “nada está perdido”
Entrevista por Benedetto Vecchi, no Il Manifesto | Tradução: Anete Amorim Pezzini
A crise do capitalismo alimenta o crescimento, na Europa, de um populismo inquietante e autoritário que tem em Sílvio Berlusconi o maior intérprete. Mas abre também espaço inédito para uma política que tenda à sua superação, como mostra esta entrevista com o filósofo esloveno Slavoj Zizek, por ocasião do lançamento do livro Primeiro como tragédia, depois como farsa1.
Escrita em estilo sóbrio, a obra analisa o mundo depois da crise econômica e a tendência de muitos governos de intervir, por meio de financiamento das dívidas dos bancos e das grandes instituições financeiras, para evitar aquilo que apenas há poucos anos parecia a trama de um filme de ficção sobre o colapso do capitalismo. Mas o autor procura distanciar-se das posições teóricas de muitos estudiosos marxistas, que sempre viram o neoliberalismo como um parêntese que, eventualmente, seria substituído por uma realidade social e política mais consentânea com as leis econômicas, dando pouco espaço para os rentistas que enriqueceram com as loucuras especulativas das últimas décadas.
Para Zizek, ao contrário, o neoliberalismo, tem sido uma adequada contra-revolução que cancelou a constituição material e formal surgida após a II Guerra Mundial, quando o capitalismo era sinônimo de democracia representativa. No início do terceiro milênio, a contra-revolução terminou, abrindo espaço para uma política radical que Zizek, em sintonia com o filósofo francês Alain Badiou, chama enfaticamente de “hipótese comunista”.
O filósofo esloveno não fecha, porém os olhos para o fato que os sinais provenientes de toda a Europa apontam para a ascensão de uma direita populista que conquista consensos onde os partidos social-democratas eram tradicionalmente fortes – como na Holanda, Noruega, Suécia. E também era irônico que com os democratas e norte-americanos radicais, que “nos Estados Unidos, depois de haver saudado a eleição de Obama para a Casa Branca como um evento divino, agora deleitassem-se em discutir se é politicamente mais incisivo Avatar, de James Cameron, ou Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow”. Eis a entrevista:
Leia também: Projeto Revoluções volta em maio
Seminário, oficinas e exposição em S.Paulo marcam segunda fase da iniciativa, que inclui lançamento de dois livros de Slavoj Zizek
Em um artigo seu, o senhor lançou farpas contra Avatar, definindo-o como um filme apolítico. No entanto, no filme de Cameron, há fortes referências tanto à guerra do Iraque quanto à destruição da floresta amazônica: em ambos os casos, os vilões são as multinacionais…
Slavoj Zizek: O filme de James Cameron é agradável, divertido, uma obra inovadora do ponto de vista do uso das tecnologias digitais. Mas aqueles que sustentam que os críticos radicais nos Estados Unidos são uma espécie de ala marxista de Hollywood não me convencem. Eles escreveram que Avatar retrata a luta de classes e a luta dos pobres contra os ricos, com o fim de auto-determinarem sua vida. Há um planeta, Pandora, que é invadido por uma tropa de mercenários a soldo de multinacionais. O objetivo é depredar seus recursos naturais, colocando, assim, em perigo o milenário equilíbrio que os seres vivos estabeleceram com o luxuriante ecossistema. Podemos estabelecer certa analogia com o que as multinacionais e os países imperialistas fazem com a floresta amazônica, com o Iraque ou com toda aquela realidade onde estão as fontes energéticas e as matérias primas fundamentais para a produção de riqueza. No filme, os aborígenes de Pandora, em nome de uma visão holística de relação com a natureza, opõem-se ao capitalismo, vencendo, no final, sua batalha. Mas a natureza é um produto cultural que muda com a mudança das relações sociais.
Os seres sempre retiraram da natureza os meios para viver e se reproduzir como espécie. Mas ao fazê-lo, transformaram a natureza. Não é, portanto, retornando a uma idade de ouro idealizada, como sugere James Cameron, que se pode derrotar o capitalismo.Avatar é pura fantasia, fascinante por certo, mas sempre fantasia.
O senhor tem frequentemente sublinhado que o populismo seja uma doença do Político. Não lhe parece que o populismo, mais que uma doença, seja a forma política melhor que as outras se adapta ao capitalismo contemporâneo?
Slavoj Zizek: Até alguns anos atrás, afirmava-se que o capitalismo era sinônimo de democracia na sua forma liberal, fundada sobre a tolerância, o multiculturalismo e o politicamente correto. Agora, ao contrário, assistimos às forças ou aos líderes políticos que invocam a mobilização do povo para combater os inimigos do estilo de vida moderno. O filósofo argentino Ernesto Laclau analisou a fundo a lógica do populismo, sustentando que existe uma variante de esquerda e uma variante de direita. A tarefa do pensamento crítico consistiria em evitar a derivação de direita.
Não estou de acordo com essa posição. Em primeiro lugar, o populismo é sempre de direita. Além disso, o povo, como a natureza, é uma invenção. Laclau acredita que para fazê-lo tornar-se realidade deve-se imaginar um universal que contenha e supere as diferenças dentro dele. Daí a necessidade de identificar um inimigo que impede a formação do povo. Não é uma coincidência, então, que a forma acabada de populismo seja o anti-semitismo, porque indica um inimigo que vive entre nós. O mesmo fazem os populistas contemporâneos quando indicam os migrantes como a quinta-coluna entre nós.
De acordo com o senhor, o populismo dirigirá o conflito contra inimigos de conveniência, para esconder o sistema de exploração do capitalismo. Isso quer dizer que esta tendência ocupa um espaço político abandonado, por exemplo, pela esquerda. Como recuperar esse espaço?
Slavoj Zizek: Walter Benjamin escreveu que o fascismo emerge de onde uma revolução foi derrotada. Um conceito que, aplicado à realidade contemporânea, explica o fato de o populismo emergir quando a hipótese comunista, que não coincide com o socialismo real, é retirada da discussão pública. Entretanto, no tolerante capitalismo contemporâneo assistimos à campanha midiática contra os migrantes, porque atentam contra nossa segurança. Ou ficamos atordoados com intelectuais que, como Bernard Henri-Levy, debatem longamente sobre a superioridade da civilização ocidental e sobre o perigo representado pelo fundamentalismo islâmico, qualificado como islamo-facismo.
Creio, todavia, que há fortes pontos de contato entre a ideologia liberal e o populismo: ambos são pensamentos políticos que levam em conta o estilo de vida capitalista ocidental como o único mundo possível. Os liberais, em nome da superioridade da democracia, os populistas em nome do único estilo de vida que as pessoas se dão. Há também diferenças. Os liberais estão impondo, mesmo com as armas, a democracia e a tolerância entre quem não é democrático nem tolerante. Os populistas desejam, ao contrário, aniquilar de modo suave de polícia étnica as diversidades culturais, sociais, de estilo de vida. O populismo é, portanto, uma das formas políticas do capitalismo global, mas não a única. Silvio Berlusconi, frequentemente julgado como um comediante ou um personagem de opereta, é, ao contrário, um líder político para ser estudado com atenção, porque pretende conjugar a democracia liberal com o populismo.
O premiê italiano está, todavia, acelerando uma tendência presente em todos os sistemas políticos democráticos. Sua obra visa modificar o equilíbrio dos poderes – executivo, legislativo, judiciário – para benefício do executivo, de modo tal que o executivo que englobe o legislativo e o judiciário, mas sem cancelar os direitos civis e políticos. As eleições são consideradas como uma sondagem sobre a obra do executivo. Se Berlusconi perde, invoca em seguida a soberania popular representada por ele. A forma política que propõe é, sim, uma mescla entre democracia e populismo, se bem que a sua ideia de democracia seja uma democracia pós-constitucional que faz da invenção do povo o seu traço distintivo. Tudo isso faz com que a Itália, mas que um país atípico, seja um laboratório inquietante onde se desenvolveu uma democracia pós-constitucional. Desse ponto de vista, na Itália está-se construindo o futuro dos sistemas políticos ocidentais…
Slavoj Zizek: O que você quer dizer com pós-constitucional?
Uma democracia que elimina a antiga divisão e equilíbrio entre os poderes executivo, legislativo e judiciário. Equilíbrio dos poderes definido por todas as constituições europeias e pelo Bill of Rights dos Estados Unidos…
Na Europa, tudo isso é chamado pós-democracia. Claro, Sílvio Berlusconi deseja superar a democracia representativa que conhecemos no capitalismo. Por isso é um líder político mais que nenhum outro. Acho que o presidente Nicolas Sakozy tem uma visão muito mais clara do que aquela posta em jogo no capitalismo. Isso quer dizer que é mais perigoso do que os outros expoentes da direita europeia ou estadunidense. Não nos encontramos, portanto, em frente a um personagem de opereta, que vai às mulheres e promulga leis ad personam. A tragédia apresenta sempre momentos de opereta. Mas há tragédia quando se manifestam conflitos radicais, onde não há possibilidade nem de mediação nem de salvação.
Será, por isso, interessante ver como evoluirá a situação italiana, que não representa — e sobre isso, estou de acordo contigo — uma anomalia, mas um laboratório político cuja existência condicionará muitíssimo o futuro político da Europa. Na Holanda, na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na França, na Inglaterra há, de fato, forças políticas populistas que recolhem sempre mais consensos eleitorais graças às campanhas anti-migratórias que conduzem, mas não têm aquele radicalismo que apresenta a situação italiana.
Dito isso, não é preciso, no entanto, desenvolver uma visão apocalíptica da realidade. É claro: há uma guerra civil rastejante na sociedade capitalista. A inquietação ambiental atingiu os níveis de vigilância. A democracia é reduzida a um simulacro. Ainda assim, nem tudo está perdido.
Pelo contrário. Como demonstra a recente crise econômica, quando tudo parece perdido, abre-se espaço para uma ação política radical, que eu chamo de comunista. Peguemos o recente encontro sobre ambiente realizado no ano passado em Copenhague. O resultado final, mais que um êxito decepcionante, foi um desastre político. Há propostas, derrotadas nos trabalhos da cúpula, que indicam na salvaguarda do ambiente uma das prioridades para salvar o capitalismo. Podemos pensar em uma aliança tática com quem o carrega avante.
A crise econômica, além disso, exigiu uma intervenção do Estado para salvar da bancarrota empresas, bancos e sociedades financeiras. Mas isso significou que o tabu sobre a periculosidade da intervenção reguladora do Estado foi quebrada. Isso pode reforçar os socialistas — isto é, aqueles que apontam para uma redistribuição de renda e de poder. Não é a política que eu amo, mas abre espaço a propostas mais radicais. Em outras palavras, volta forte a ideia comunista de transformar a realidade. O que proponho não é um mero exercício de otimismo da razão, mas a consciência de que há forças e relações sociais que podem ser liberadas a partir da camisa de força do capitalismo. Toni Negri e Michael Hardt acham que enfatizando as características do capitalismo pós-moderno criam-se condições para o governo da comuna — isto é, do comunismo – graças àquilo que definiu a virtude prometeica da multidão. Mais realisticamente, acho que devemos organizar as forças sociais oprimidas para uma ação praticável no presente e no futuro imediato.
O senhor escreve, em sintonia com Alain Badiou, que o comunismo é uma ideia eterna. Uma política “comunista” deve, todavia, ancorar-se numa análise das relações sociais de produção e das formas que ela assume em uma contingência histórica. Pode-se estar de acordo ou em discordância com a tese de Negri e Hardt sobre o capitalismo cognitivo, mas seus escritos assinalam exatamente essa necessidade. Caso contrário, o comunismo torna-se uma teologia política, não acha?
Slavoj Zizek: Não acredito, como Hardt e Negri, que com o desenvolvimento capitalista a forças produtivas, mais cedo ou mais tarde, entrem em rota de colisão com as relações sociais de produção. Precisamos agir politicamente para que isso aconteça. É esse o legado de Lenin que não pode mais ser apagado. Mas deixemos fora os textos sagrados e olhemos o capitalismo real. Existe certamente uma setor de força-trabalho cognitiva, mas que também continua a trabalhar em fábrica e que, como os migrantes, é reduzida a uma condição de submissão servil no processo laboral.
Para não jogar no lixo da história esses “excluídos”, ou “marginais”, é preciso uma forte imaginação política, capaz de recompor e unir as diferentes setores da força-trabalho. A teologia é sempre fascinante, mas, quando digo que a ideia comunista é eterna, refiro-me ao fato de que é uma constante na história humana a tensão de superar a condição de escravidão e exploração. Por isso, o comunismo volta sempre, mesmo quando tudo previa que fosse permanecer definitivamente sepultado sob os escombros do socialismo real.
Dia do TRABALHADOR.
| 125 vezes Maio ! |
A todos
que saíram às ruas
de corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!
O ano um do Dia Internacional do Trabalhador, acontece em 1866, nos Estados Unidos, quando a Federação Americana do Trabalho e os Cavaleiros do Trabalho, apresentam a proposta de redução da jornada de trabalho aprovada em assembleia:
A partir de hoje
nenhum operário
deve trabalhar
mais de oito horas por dia.
Oito horas de trabalho!
Oito horas de repouso!
Oito horas de educação!
Depois das oito horas, os operários abandonam as máquinas e saem às ruas, junto às centenas de milhares de trabalhadores de todo país. Em cada um dos estados, a luta persiste até chegarem ao acordo por oito horas de trabalho, ou por 10 horas com aumento de salário. Mas, na maioria dos estados, os patrões reagem com a violência policial ou de grupos de direita armados, como os “Defensores da Ordem”.
Mas, foi em Chicago que a história do 1º de Maio ficou marcada. Eu estava lá, vi e ouvi tudo. Você também há de se recordar. Nós estávamos lá, e participamos da luta de classes, e pelo 1º de Maio na conquista do nosso direito às oito horas de trabalho.
Em Chicago, coração da indústria norte-americana, a luta é mais sangrenta. Os operários, muitos deles organizados em partidos e sindicatos anarquistas e socialistas, decidem eliminar a interminável jornada de 14 a 16 horas por dia. Os poderosos patrões de Chicago declaram no Chicago Times a sua opinião sobre a reivindicação operária:
A prisão e o trabalho forçado
são a única solução possível para a questão social.
O único jeito de curar os trabalhadores do orgulho
é reduzi-los a máquinas humanas,
e o melhor alimento que os grevistas podem ter é o chumbo.
Os sindicalistas, August Spies e Albert Parsons, são marcados.
No jornal Mail, os patrões decidem acusar publicamente August Spies, anarquista que dirige o jornal Arbeiter Zeitung para os milhares de trabalhadores de origem alemã e Albert Parsons, líder sindicalista, fundador da Central Union, e diretor do jornal operário Alarm:
Circulam livremente nessa cidade
dois perigosos cafajestes,
dois canalhas que querem criar desordens.
Um se chama Spies, o outro Parsons.
Vigiai-os, segui-os;
considerai-os responsáveis
se acontecer alguma coisa.
E se algo suceder, eles que paguem por isso.
O 1º de Maio de Chicago se inicia com uma greve vitoriosa. Sábado, fábricas, lojas, transportes, tudo está parado. Milhares de trabalhadores marcham junto com a Federação Americana do Trabalho e os Cavaleiros do Trabalho pela avenida Michigan até a praça Haymarkert.
Os imigrantes italianos, irlandeses, alemães, poloneses e russos, identificam-se por suas roupas tradicionais. Homens, mulheres, crianças acompanham a manifestação. A Guarda Nacional espalha-se entre as esquinas e no alto dos edifícios. Na praça, oradores fazem seus discursos em diferentes línguas. Parsons também fala, junto com sua esposa e sua filha Lulu, de sete anos. Se os patrões não cedem, decidem manter a greve. E todos voltam, unidos, decididos e em silêncio para suas casas.
2 de Maio, domingo a organização da greve se amplia. O movimento segue forte. Os patrões têm um plano: colocar a polícia nas ruas para atacar os trabalhadores, prender os grevistas e perseguir os sindicalistas.
3 de Maio, segunda-feira, a polícia atira contra os operários em frente à fábrica McCormick Harvester. O resultado da repressão policial: seis mortos, 50 feridos e centenas são levados para a prisão.
Spies convida os trabalhadores para uma manifestação contra a repressão, no jornal Arbeiter Zeitung e denuncia:
A guerra de classes começou. Quem pode negar que os tigres que nos governam estão ávidos do sangue dos trabalhadores. Melhor a morte que a miséria.
Parsons defende uma manifestação pacífica na noite do dia seguinte. Todos devem levar os filhos. Ninguém poderia imaginar o que iria acontecer...
4 de Maio, terça-feira, 7h30 da noite.
A praça Haymarket está lotada de grevistas em luto. Spies, Parsons e Sam Fielden falam sobre a necessidade de manter a greve pelas oito horas.
No final da manifestação, todos são surpreendidos pela violência de 180 policiais que espancaram centenas de trabalhadores.
De repente, uma bomba explode entre os policiais. 60 são feridos e outros morrem logo em seguida. Era o sinal esperado para o massacre.
A ordem é enviar mais policiais para a repressão em massa. Ninguém escapa: homens, mulheres e até mesmo crianças. A praça fica ensanguentada. Nunca se descobriu a quantidade exata de mortos, pois a ordem foi fazer enterros clandestinos.
É decretado Estado de Sítio. O objetivo dos patrões e do governo: destruir a liderança e derrotar o movimento pelas oito horas de trabalho.
Inicia-se a caçada aos grevistas. Bandidos são contratados para invadir e destruir a casa dos trabalhadores, espancar os familiares, ameaçar quem continuasse a greve. Dedo-duros infiltram-se no movimento grevista e indicam os lutadores mais aguerridos para serem acusados pelo atentado à bomba.
A farsa tinha sido montada para levar à julgamento os oito líderes: August Spies, Sam Fielden, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Schwab, Louis Lingg e Georg Engel e Albert Parsons.
21 de junho de 1886. Durante o julgamento, a farsa é desmontada. As provas e as testemunhas são falsas. Mas, a justiça é comandada pelos patrões. Os oito líderes do movimento pelas oito horas já estavam condenados antes de chegar ao tribunal. Um dos jurados dá a sentença:
Que sejam enforcados.
São homens demais desenvolvidos,
demais inteligentes,
demais perigosos
para os nossos privilégios.
9 de outubro de 1886.
Sentença final.
Cinco são condenados à morte: Parson, Engel, Fischer, Lingg e Spies.
Dois são condnados à prisão perpétua: Fielden e Schwab.
Um é condenado à quinze anos de prisão: Neeb.
Neeb é o primeiro a falar, depois de ouvir a sentença, e pede para ser condenado à morte, como seus companheiros, pois não pode ser mais inocente que os outros, já que todos são completamente inocentes:
"Cometi um grande crime, excelência. Eu vi os balconistas desta cidade trabalhar até 9 ou 10 horas da noite. Lancei um apelo para a organização da categoria e agora eles trabalham até as 7 horas da noite; aos domingos, estão livres. E isso é um grande crime".
Em seguida, Spies desafia a injustiça dos poderosos:
"Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário – este movimento do qual milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção -, se esta é sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não podem apagá-lo".
Lingg defende a honra da classe trabalhadora:
"Permiti que vos assegure que morro feliz porque estou certo de que centenas, milhares de pessoas a quem falei recordarão minhas palavras".
Parsons, grande orador, fala por mais de uma hora sobre os ideais socialistas para os operários:
"Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão. A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objetivo do socialismo".
11 de novembro de 1886.
Enforcamento dos líderes grevistas.
Spies, Engel, Fischer e Parsons são levados para o pátio da prisão para serem enforcados. Lingg suicidou-se na cadeia. Não se acovardam e nem se deixam silenciar diante da morte.
Spies desafia:
Adeus, o nosso silêncio será muito mais potente do que as vozes que vocês estrangulam!
Engel grita:
Viva a anarquia!
Fischer murmura:
Eis o dia mais feliz da minha vida.
Parson é enforcado antes que termine a frase:
Deixem-me falar com o meu povo...
Os operários carregam os restos mortais dos mártires de Chicago. Manifestações pelas oito horas de trabalho se intensificam de Chicago para todo o país e dos Estados Unidos para o mundo. Mas, os trabalhadores nunca se esqueceram da injustiça cometida e exigem a libertação dos inocentes e a condenação dos responsáveis pelo enforcamento dos companheiros.
Apenas em 1892, o governador de Illinois reconhece o assassinato de Estado, anula a sentença, liberta os três prisioneiros e acusa de infâmia o juiz, os jurados e as falsas testemunhas.
Em 1889, A Federação Americana do Trabalho propõe que o dia 1º de Maio seja o dia de greve geral pela redução da jornada de trabalho, em memória à luta dos oito companheiros de Chicago. E nesse mesmo ano, um congresso internacional de trabalhadores, na França, decide transformar o dia 1º de Maio em data fixa para manifestação internacional de todos os trabalhadores pela redução da jornada de trabalho para oito horas, dentre outras reivindicações.
Nos Estados Unidos, os oito de Chicago são sempre lembrados no May Day. Todos nós, que lá estivemos junto com nossos companheiros do passado, pela herança de suas lutas, e herdamos as suas conquistas, lembraremos, nas praças, desses 125 anos de luta do 1º de Maio junto com nossos atuais companheiros e companheiras.
Em homenagem aos 125 anos do 1º de Maio e aos 140 anos da Comuna de Paris, encerramos com o poema de Brecht escrito entre os anos 1948 e 1949 para a peça Os dias da Comuna. Suas lições não perderam a atualidade...
TODOS OU NINGUÉM
Bertolt Brecht
(Peça teatral Os dias da Comuna- 1948-49)
Escravo, quem vai te libertar?
Aqueles que estão no fundo mais fundo,
Camarada, vão te ver.
E ouvirão o teu grito:
Os escravos vão te libertar.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Faminto, quem vai te alimentar?
Se quiseres um pedaço de pão
Junta-te a nós, nós que temos fome
Deixe que te mostremos o caminho:
Os que têm fome vão te alimentar.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Quem, vencido, quem te vingará?
Tu, que fostes golpeado
Junta-te às fileiras dos feridos
Nós em todas nossas fraquezas,
Camarada, vamos te vingar.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Quem, perdido, que se atreverá?
Quem sua miséria não mais suporta
Pode, deve se juntar com aqueles
Que por necessidade cuidam
Para que seja hoje e não amanhã.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Fonte: http://lutadeclasses.blogspot.com/
quarta-feira, maio 18, 2011
As profecias do homem-consumo e o esvaziamento das necessidades.
É o paradoxo das nossas vidas. Nunca tivemos tanta liberdade para moldar nossas vida do modo como queremos, mas nunca estivemos sujeitos a tantas pressões nos dizendo o que é desejável. David Rowan, The Times, 6 de setembro de 2003
Parece estar suficientemente demonstrado que, quando o ocidente abandonou a noção (antes bastante popular) de que a pobreza é uma virtude, foi com a ardente aprovação da Reforma Protestante – e provavelmente por direta inspiração dela. O que ainda não sabemos avaliar são todos os resultados que essa mudança de paradigma lançou futuro adentro. Algumas dessas flechas estão apenas começando a nos atingir; outras já nos atravessaram as pernas e o coração. Mesmo antes da era da mecanização, alguns observadores, avaliando essa formidável transição, olharam com nostalgia para o passado e com temor para o futuro. Hoje em dia discute-se se um mundo que não acredita em Deus irá manter-se abraçado à ética; naquela época discutia-se se um mundo que acredita na ambição e no lucro pode alegar estar abraçado a Deus. Quando a revolução industrial era menos do que uma promessa e a era da informação menos do que um sonho, esses sujeitos enxergavam o que hoje deveria ser visto como lugar-comum: que a ganância, liberta de suas cadeias ancestrais e alimentada pela tecnologia, poderia se mostrar a chave da destruição do mundo e da mais fatal cegueira da história da humanidade. Em seu A Vida de Fausto, de 1791, Friedrich Maximilian Klinger coloca na boca de Satã algumas dessas profecias:
Este é Novalis (1772-1801), escrevendo mais ou menos na mesma época, em seu A Cristandade, ou a Europa:
Acho especialmente relevante e lúcido que esses autores tenham entendido, de seu posto há duzentos anos atrás, de onde não tinham como saber o que hoje sabemos, que o segredo da vitória final da ganância residiria na manipulação das necessidades. Novalis enxergou que necessidades mais complexas requerem mais recursos e mais tempos para serem satisfeitas. O mero tempo necessário para aprendermos a nos tornar “produtivos” e a nos mantermos assim pode estar sequestrando partes muito legítimas da existência – porções e pausas de vida que perdemos inteiramente de vista enquanto corremos atrás do vento. Antes dos engarrafamentos e dos shopping centers, Novalis entreviu que a tarefa de nos tornarmos consumidores eficazes pode estar nos subtraindo o privilégio e a tarefa mais essencial de viver. Klinger olhou ainda mais longe, e na mesma página diz duas vezes que a chave da manipulação e da ruína da humanidade residirá na “criação de necessidades”. Antes da televisão de tela plana e do iPad, ele entendeu que o homem abraçará os pés do diabo para não ter de resistir ao apelo de “novas necessidades”. Essas profecias falam de um momento no futuro em que os homens finalmente dominariam a arte de transformar o que é supérfluo em necessidade. Essa hora, naturalmente, já chegou. Mais do que Novalis jamais poderia sonhar, aprendemos a validar nossa humanidade através daquilo que consumimos. E, numa vertigem que levaria Klinger à loucura, a subsistência dos sistemas do mundo absolutamente depende da criação e da divulgação insaciável de novas necessidades. Até mais ou menos recentemente, a durabilidade de um produto era encarada como valor: os produtos eram feitos e comprados para durar. Esse paradigma, no entanto, não funcionava a serviço de um capitalismo que depende do consumo sem pausa para sobreviver. As indústrias aprenderam não apenas a lançar novos produtos (coisa que fizeram desde o começo), mas a encaixá-los num rigoroso programa de obsolescência programada. Mesmo quando compradas para durar, as coisas passaram a ser feitas para não durar. Hoje em dia um produto apresenta falhas técnicas muito antes do que já foi considerado aceitável, e o custo do conserto e da manutenção se mostra muitas vezes maior do que o custo da aquisição de um produto novo. O verdadeiramente notável nessa equação é que aprendemos a deixar de ficar indignados com isso, devidamente aplacados pelas vantagens anunciadas do novo produto-necessidade. O último estágio da transição de valor do durável para o instantâneo ocorreu quando as indústrias deixaram de ocultar o seu projeto de obsolescência programada e passaram a anunciá-lo aos quatro ventos como evidência de compromisso com a inovação. Hoje não há quem compre um equipamento eletrônico desconhecendo que daqui a um dia ou dois, talvez antes, um equipamento com mais botões estará ocupando o mesmo lugar na estante. Não há quem compre um iPhone 4 sem saber que este ano ainda deve sair o 5. A perspectiva da obsolescência deixou de ser um problema e passou a ser um componente legítimo do produto, um de seus mais irresistíveis atrativos. E, como diz a piada, com esses dez por cento nós vamos vivendo. Os profetas continuam falando e sendo solenemente ignorados, porque ouvi-los seria morder a mão que nos alimenta – ou mais propriamente, seria deixar de morder a mão que estamos consumindo: a nossa própria. Ivan Illich explica além da dúvida que nos tornamos tão habituados às soluções da tecnologia que tornamo cegos ao fato de que estamos sendo aprisionados por elas. As soluções que deveriam tornar a vida mais fácil, bem como a obediente satisfação das necessidades novas e complexas que nos vende o sistema, pouco fizeram além de criar novos problemas, e crônicos. Entre eles estão as chamadas “doenças da opulência”, invenções do nosso sucesso em canalizar o nosso modo de vida de modo a perseguir a prosperidade – coisas como obesidade, depressão, ansiedade, hipertensão e diabetes. Essas novas doenças aplacamos com novos remédios, é claro, porque seria pedir demais que nos rebaixássemos a mudar de vida. Para que o sistema continue rodando, nada nem ninguém – nem nossa própria qualidade de vida nem o esgotamento dos recursos do mundo – deve ser considerado motivo legítimo para atrasarmos o relógio e voltarmos ao ritmo das meras necessidades, as antigas. Onde o supérfluo é visto como necessário, o próprio conceito de necessidade é sequestrado e esvaziado para sempre. Havia uma coisa importante que era necessário eu dizer para concluir, mas dizê-lo neste mundo não faz sentido. Fonte: Bacia das Almas |
quarta-feira, maio 11, 2011
Poema
segunda-feira, maio 09, 2011
Nos 128 anos da morte de Marx.
Em livro publicado no início deste ano pela editora Little, Brown na Inglaterra, sob o título de “Como mudar o mundo” (How to Change de World) o escritor marxista Eric Hobsbawm recupera -- logo em seu primeiro capítulo (Marx, Hoje) – um evento chamado Semana Judaica do Livro realizada em 2007, em Londres, duas semanas antes do dia em que se lembra a morte de Karl Marx, em 14 de março. O tal evento ficava bem perto de onde se localiza a área da capital londrina mais associada à vida do fundador do marxismo: o chamado Round Reading Room (a sala de leitura principal) do Museu Britânico, situado na Great Russell St.
Naquela ocasião, dois diferentes pensadores – Jacques Attali e o próprio Hobsbawm – foram convidados a fazer uma homenagem póstuma em memória de Marx. Em seu texto, o autor argumenta que não se poderia dizer que Marx havia sido coberto de insucessos em 1883, pois seus escritos começavam a causar impacto na Alemanha e especialmente entre os intelectuais russos da época, além de galvanizar um movimento social liderado por seus discípulos que estava em curso no ambiente sindical e trabalhista alemão.
Mas, de fato, havia pouco material disponível que revelasse o trabalho de toda uma vida. Ele escrevera alguns textos brilhantes e o tronco principal de sua mais importante obra, O Capital, texto sobre o qual dedicara os últimos dez anos de sua vida, enfrentando grandes dificuldades.“Que obras?”, perguntou Marx de forma ácida quando um visitante o questionara a respeito de seus trabalhos... relembrou Hobsbawm em sua palestra. O esforço político organizativo mais significativo de Marx desde a débâcle da revolução de 1848, a então chamada Primeira Internacional de 1864—73, havia se desfeito. Além disso, ele não conseguira alcançar uma posição de destaque na vida política e intelectual da Inglaterra, onde havia vivido quase metade de sua vida, como exilado.
E apesar de tudo isso, disse Hobsbawm, que extraordinário sucesso póstumo! Após vinte e cinco anos de sua morte os partidos políticos das classes trabalhadoras européias fundados em seu nome – ou que se diziam inspirados por Marx – conquistaram de 15 a 47% dos votos nos países que adotavam eleições democráticas – com a única exceção da Inglaterra. Depois de 1918, continuou ele, a maior parte destes partidos se tornou partícipe de governos, não apenas partidos de oposição, e permaneceram como tais mesmo após o fim do fascismo, apesar de que muitos deles ansiarem por renegar sua origem... Todos eles ainda mantêm sua organização em funcionamento.
Neste meio tempo, discípulos de Marx criaram grupos revolucionários em países não-democráticos e no terceiro mundo. Passados setenta anos da morte de Marx, um terço da humanidade vivia sob regimes comandados por partidos comunistas que se propunham representar as ideias e aspirações marxistas. Deste terço do planeta, hoje pelo menos 20% ainda se declara socialista, apesar de que os partidos no poder, com algumas exceções, tenham dramaticamente alterado suas políticas – no entendimento de Hobsbawm. Em resumo, diz ele, se algum pensador deixou sua marca indelével no século XX, esta figura foi Marx.
Percorrendo as ruelas do cemitério de Highgate, onde estão depositados os restos mortais de dois filósofos do século dezenove – Karl Marx e Herbert Spencer – nota-se que curiosamente eles estão colocados frente a frente. Quando ambos estavam vivos, Herbert era conhecido como o Aristóteles da sua época, e Karl um sujeito que vivia na periferia de Hampstead à custa dos recursos de um amigo seu... Hoje em dia ninguém sabe que Spencer está enterrado lá, enquanto peregrinos do Japão e da Índia visitam o túmulo de Karl Marx e exilados comunistas iranianos e iraquianos insistem em serem queimados sob sua memória.
Hobsbawn relativiza a pesquisa realizada entre os ouvintes e telespectadores da BBC, a rede pública de informação britânica, que colocou Karl Marx como o maior filósofo de todos os tempos, mas lembrou em seu arrazoado que se colocarmos o nome de Marx na ferramenta de busca do Google, ele permanece com o maior número de referências, apenas superado por Darwin e Einstein, mas muito à frente de Adam Smith e Freud.
O autor do livro lançado, ainda sem tradução para o português, lembrou naquele ato que o grande interesse na obra de Marx, de forma contraditória, ganhou grande impulso recentemente com o desencadeamento da grande crise econômica e financeira a partir do epicentro nos Estados Unidos. Contou, então, que encontrara com George Soros e que este lhe havia perguntado o que pensava sobre Karl Marx. Ao que Hobsbawm – sabedor das profundas diferenças de visão entre ambos – verbalizou uma resposta ambígua qualquer. Soros acabou dizendo, em seguida, que “há 150 anos aquele homem descobriu algo sobre o capitalismo que precisamos levar em conta atualmente”. Logo depois deste fato, Hobsbawm começou a perceber um número crescente de intelectuais que nunca haviam se apresentado como de esquerda fazer referências às obras marxistas. Como Jacques Attali, seu companheiro de seminário naquele dia, autor de obra sobre a vida e o estudo desenvolvido por Marx.
Por fim, Hobsbawm lembrou que o jornal conservador inglês Financial Times, de outubro de 2008, estampou na primeira página o título: Capitalismo em convulsão, não restara dúvidas que Marx voltava à cena pública. Enquanto o capitalismo atravessa uma de suas piores crises desde a década de 1930, ele provoca o reaparecimento de seu pensamento. Por outro lado, segundo o autor, o Marx do século XXI será, certamente, bem diferente do Marx do século XX.
_________
Presidente nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)
Fonte: http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=5081
terça-feira, maio 03, 2011
O ateísmo lúcido de Lovecraft.
Meu professor de redação H. P. Lovecraft, de quem herdei o vício de abusar de adjetivos, era um ateu convicto, ocasionalmente militante. A mesma convicção materialista que o fez eliminar dos seus contos de terror qualquer traço do sobrenatural levou-o a duvidar de todas as manifestações tradicionais de religião. Sua histórias não são povoadas por vampiros, fantasmas ou assombrações, e pelo mesmo motivo no seu universo não há espaço para Deus ou para intervenções sobrenaturais1. Tudo no cosmos é gerado pelo acaso, e este domado apenas pelas leis cegas da física. No grande contexto do universo, a vida orgânica na terra não passa de “um acidente minúsculo e temporário”, sendo a própria humanidade “um acidente ainda menor e mais temporário”. Essas convicções, mais ou menos populares hoje em dia, estavam longe de serem comuns na década de 1930, a última do autor. Acho particularmente notável, no entanto, que a grande reserva que Lovecraft encontrou para apresentar contra o cristianismo não foi o fato de a fé cristã pressupor um universo sobrenatural que contrariava sua visão de mundo materialista. Sua indignação era ao mesmo tempo mais profunda e mais lúcida2:
E basta este trecho para Lovecraft se mostrar mais agudo e inclemente do que Richard Dawkins ou qualquer outro ateu militante da nova geração. Em particular, Lovecraft enxerga que o cristianismo é uma ameaça para o conceito de raças e nações justamente por propor um ideal elevado demais, um sonho de fraternidade aparentemente impraticável e “totalmente alienígena à natureza humana”. Ao contrário dos ateus militantes contemporâneos, ele sabe avaliar o verdadeiro peso do seu adversário. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça à civilização por ser uma religião como as outras; para Lovecraft, é uma ameaça justamente por não ser uma religião, já que as religiões tendem a apoiar e legitimar o estado de coisas. Para Dawkins o cristianismo é um risco perene porque recusa-se a reconhecer a natureza última da realidade; para Lovecraft, ele é um risco porque sonha teimosamente poder alterá-la. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça por patrocinar a injustiça; para Lovecraft, é uma ameaça por sonhar uma justiça excessiva: por ser uma intransigente ingenuidade e uma declarada insensatez, uma poesia que pode transtornar o mundo se raças e nações não resistirem ao apelo evangélico de conformarem-se a ela. Para Dawkins o escândalo está em, diante de todas as evidências, o cristianismo recusar-se a reconhecer que não há céu; para Lovecraft está em, diante de todas as improbabilidades, o cristianismo insistir em implantá-lo na terra. Dos dois, só Lovecraft sabe do que está falando. Leia também:
Fonte: Bacia das Almas |
domingo, maio 01, 2011
Zizek: “nada está perdido”
Zizek: “nada está perdido”
Entrevista por Benedetto Vecchi, no Il Manifesto | Tradução: Anete Amorim Pezzini
A crise do capitalismo alimenta o crescimento, na Europa, de um populismo inquietante e autoritário que tem em Sílvio Berlusconi o maior intérprete. Mas abre também espaço inédito para uma política que tenda à sua superação, como mostra esta entrevista com o filósofo esloveno Slavoj Zizek, por ocasião do lançamento do livro Primeiro como tragédia, depois como farsa1.
Escrita em estilo sóbrio, a obra analisa o mundo depois da crise econômica e a tendência de muitos governos de intervir, por meio de financiamento das dívidas dos bancos e das grandes instituições financeiras, para evitar aquilo que apenas há poucos anos parecia a trama de um filme de ficção sobre o colapso do capitalismo. Mas o autor procura distanciar-se das posições teóricas de muitos estudiosos marxistas, que sempre viram o neoliberalismo como um parêntese que, eventualmente, seria substituído por uma realidade social e política mais consentânea com as leis econômicas, dando pouco espaço para os rentistas que enriqueceram com as loucuras especulativas das últimas décadas.
Para Zizek, ao contrário, o neoliberalismo, tem sido uma adequada contra-revolução que cancelou a constituição material e formal surgida após a II Guerra Mundial, quando o capitalismo era sinônimo de democracia representativa. No início do terceiro milênio, a contra-revolução terminou, abrindo espaço para uma política radical que Zizek, em sintonia com o filósofo francês Alain Badiou, chama enfaticamente de “hipótese comunista”.
O filósofo esloveno não fecha, porém os olhos para o fato que os sinais provenientes de toda a Europa apontam para a ascensão de uma direita populista que conquista consensos onde os partidos social-democratas eram tradicionalmente fortes – como na Holanda, Noruega, Suécia. E também era irônico que com os democratas e norte-americanos radicais, que “nos Estados Unidos, depois de haver saudado a eleição de Obama para a Casa Branca como um evento divino, agora deleitassem-se em discutir se é politicamente mais incisivo Avatar, de James Cameron, ou Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow”. Eis a entrevista:
Leia também: Projeto Revoluções volta em maio
Seminário, oficinas e exposição em S.Paulo marcam segunda fase da iniciativa, que inclui lançamento de dois livros de Slavoj Zizek
Em um artigo seu, o senhor lançou farpas contra Avatar, definindo-o como um filme apolítico. No entanto, no filme de Cameron, há fortes referências tanto à guerra do Iraque quanto à destruição da floresta amazônica: em ambos os casos, os vilões são as multinacionais…
Slavoj Zizek: O filme de James Cameron é agradável, divertido, uma obra inovadora do ponto de vista do uso das tecnologias digitais. Mas aqueles que sustentam que os críticos radicais nos Estados Unidos são uma espécie de ala marxista de Hollywood não me convencem. Eles escreveram que Avatar retrata a luta de classes e a luta dos pobres contra os ricos, com o fim de auto-determinarem sua vida. Há um planeta, Pandora, que é invadido por uma tropa de mercenários a soldo de multinacionais. O objetivo é depredar seus recursos naturais, colocando, assim, em perigo o milenário equilíbrio que os seres vivos estabeleceram com o luxuriante ecossistema. Podemos estabelecer certa analogia com o que as multinacionais e os países imperialistas fazem com a floresta amazônica, com o Iraque ou com toda aquela realidade onde estão as fontes energéticas e as matérias primas fundamentais para a produção de riqueza. No filme, os aborígenes de Pandora, em nome de uma visão holística de relação com a natureza, opõem-se ao capitalismo, vencendo, no final, sua batalha. Mas a natureza é um produto cultural que muda com a mudança das relações sociais.
Os seres sempre retiraram da natureza os meios para viver e se reproduzir como espécie. Mas ao fazê-lo, transformaram a natureza. Não é, portanto, retornando a uma idade de ouro idealizada, como sugere James Cameron, que se pode derrotar o capitalismo.Avatar é pura fantasia, fascinante por certo, mas sempre fantasia.
O senhor tem frequentemente sublinhado que o populismo seja uma doença do Político. Não lhe parece que o populismo, mais que uma doença, seja a forma política melhor que as outras se adapta ao capitalismo contemporâneo?
Slavoj Zizek: Até alguns anos atrás, afirmava-se que o capitalismo era sinônimo de democracia na sua forma liberal, fundada sobre a tolerância, o multiculturalismo e o politicamente correto. Agora, ao contrário, assistimos às forças ou aos líderes políticos que invocam a mobilização do povo para combater os inimigos do estilo de vida moderno. O filósofo argentino Ernesto Laclau analisou a fundo a lógica do populismo, sustentando que existe uma variante de esquerda e uma variante de direita. A tarefa do pensamento crítico consistiria em evitar a derivação de direita.
Não estou de acordo com essa posição. Em primeiro lugar, o populismo é sempre de direita. Além disso, o povo, como a natureza, é uma invenção. Laclau acredita que para fazê-lo tornar-se realidade deve-se imaginar um universal que contenha e supere as diferenças dentro dele. Daí a necessidade de identificar um inimigo que impede a formação do povo. Não é uma coincidência, então, que a forma acabada de populismo seja o anti-semitismo, porque indica um inimigo que vive entre nós. O mesmo fazem os populistas contemporâneos quando indicam os migrantes como a quinta-coluna entre nós.
De acordo com o senhor, o populismo dirigirá o conflito contra inimigos de conveniência, para esconder o sistema de exploração do capitalismo. Isso quer dizer que esta tendência ocupa um espaço político abandonado, por exemplo, pela esquerda. Como recuperar esse espaço?
Slavoj Zizek: Walter Benjamin escreveu que o fascismo emerge de onde uma revolução foi derrotada. Um conceito que, aplicado à realidade contemporânea, explica o fato de o populismo emergir quando a hipótese comunista, que não coincide com o socialismo real, é retirada da discussão pública. Entretanto, no tolerante capitalismo contemporâneo assistimos à campanha midiática contra os migrantes, porque atentam contra nossa segurança. Ou ficamos atordoados com intelectuais que, como Bernard Henri-Levy, debatem longamente sobre a superioridade da civilização ocidental e sobre o perigo representado pelo fundamentalismo islâmico, qualificado como islamo-facismo.
Creio, todavia, que há fortes pontos de contato entre a ideologia liberal e o populismo: ambos são pensamentos políticos que levam em conta o estilo de vida capitalista ocidental como o único mundo possível. Os liberais, em nome da superioridade da democracia, os populistas em nome do único estilo de vida que as pessoas se dão. Há também diferenças. Os liberais estão impondo, mesmo com as armas, a democracia e a tolerância entre quem não é democrático nem tolerante. Os populistas desejam, ao contrário, aniquilar de modo suave de polícia étnica as diversidades culturais, sociais, de estilo de vida. O populismo é, portanto, uma das formas políticas do capitalismo global, mas não a única. Silvio Berlusconi, frequentemente julgado como um comediante ou um personagem de opereta, é, ao contrário, um líder político para ser estudado com atenção, porque pretende conjugar a democracia liberal com o populismo.
O premiê italiano está, todavia, acelerando uma tendência presente em todos os sistemas políticos democráticos. Sua obra visa modificar o equilíbrio dos poderes – executivo, legislativo, judiciário – para benefício do executivo, de modo tal que o executivo que englobe o legislativo e o judiciário, mas sem cancelar os direitos civis e políticos. As eleições são consideradas como uma sondagem sobre a obra do executivo. Se Berlusconi perde, invoca em seguida a soberania popular representada por ele. A forma política que propõe é, sim, uma mescla entre democracia e populismo, se bem que a sua ideia de democracia seja uma democracia pós-constitucional que faz da invenção do povo o seu traço distintivo. Tudo isso faz com que a Itália, mas que um país atípico, seja um laboratório inquietante onde se desenvolveu uma democracia pós-constitucional. Desse ponto de vista, na Itália está-se construindo o futuro dos sistemas políticos ocidentais…
Slavoj Zizek: O que você quer dizer com pós-constitucional?
Uma democracia que elimina a antiga divisão e equilíbrio entre os poderes executivo, legislativo e judiciário. Equilíbrio dos poderes definido por todas as constituições europeias e pelo Bill of Rights dos Estados Unidos…
Na Europa, tudo isso é chamado pós-democracia. Claro, Sílvio Berlusconi deseja superar a democracia representativa que conhecemos no capitalismo. Por isso é um líder político mais que nenhum outro. Acho que o presidente Nicolas Sakozy tem uma visão muito mais clara do que aquela posta em jogo no capitalismo. Isso quer dizer que é mais perigoso do que os outros expoentes da direita europeia ou estadunidense. Não nos encontramos, portanto, em frente a um personagem de opereta, que vai às mulheres e promulga leis ad personam. A tragédia apresenta sempre momentos de opereta. Mas há tragédia quando se manifestam conflitos radicais, onde não há possibilidade nem de mediação nem de salvação.
Será, por isso, interessante ver como evoluirá a situação italiana, que não representa — e sobre isso, estou de acordo contigo — uma anomalia, mas um laboratório político cuja existência condicionará muitíssimo o futuro político da Europa. Na Holanda, na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na França, na Inglaterra há, de fato, forças políticas populistas que recolhem sempre mais consensos eleitorais graças às campanhas anti-migratórias que conduzem, mas não têm aquele radicalismo que apresenta a situação italiana.
Dito isso, não é preciso, no entanto, desenvolver uma visão apocalíptica da realidade. É claro: há uma guerra civil rastejante na sociedade capitalista. A inquietação ambiental atingiu os níveis de vigilância. A democracia é reduzida a um simulacro. Ainda assim, nem tudo está perdido.
Pelo contrário. Como demonstra a recente crise econômica, quando tudo parece perdido, abre-se espaço para uma ação política radical, que eu chamo de comunista. Peguemos o recente encontro sobre ambiente realizado no ano passado em Copenhague. O resultado final, mais que um êxito decepcionante, foi um desastre político. Há propostas, derrotadas nos trabalhos da cúpula, que indicam na salvaguarda do ambiente uma das prioridades para salvar o capitalismo. Podemos pensar em uma aliança tática com quem o carrega avante.
A crise econômica, além disso, exigiu uma intervenção do Estado para salvar da bancarrota empresas, bancos e sociedades financeiras. Mas isso significou que o tabu sobre a periculosidade da intervenção reguladora do Estado foi quebrada. Isso pode reforçar os socialistas — isto é, aqueles que apontam para uma redistribuição de renda e de poder. Não é a política que eu amo, mas abre espaço a propostas mais radicais. Em outras palavras, volta forte a ideia comunista de transformar a realidade. O que proponho não é um mero exercício de otimismo da razão, mas a consciência de que há forças e relações sociais que podem ser liberadas a partir da camisa de força do capitalismo. Toni Negri e Michael Hardt acham que enfatizando as características do capitalismo pós-moderno criam-se condições para o governo da comuna — isto é, do comunismo – graças àquilo que definiu a virtude prometeica da multidão. Mais realisticamente, acho que devemos organizar as forças sociais oprimidas para uma ação praticável no presente e no futuro imediato.
O senhor escreve, em sintonia com Alain Badiou, que o comunismo é uma ideia eterna. Uma política “comunista” deve, todavia, ancorar-se numa análise das relações sociais de produção e das formas que ela assume em uma contingência histórica. Pode-se estar de acordo ou em discordância com a tese de Negri e Hardt sobre o capitalismo cognitivo, mas seus escritos assinalam exatamente essa necessidade. Caso contrário, o comunismo torna-se uma teologia política, não acha?
Slavoj Zizek: Não acredito, como Hardt e Negri, que com o desenvolvimento capitalista a forças produtivas, mais cedo ou mais tarde, entrem em rota de colisão com as relações sociais de produção. Precisamos agir politicamente para que isso aconteça. É esse o legado de Lenin que não pode mais ser apagado. Mas deixemos fora os textos sagrados e olhemos o capitalismo real. Existe certamente uma setor de força-trabalho cognitiva, mas que também continua a trabalhar em fábrica e que, como os migrantes, é reduzida a uma condição de submissão servil no processo laboral.
Para não jogar no lixo da história esses “excluídos”, ou “marginais”, é preciso uma forte imaginação política, capaz de recompor e unir as diferentes setores da força-trabalho. A teologia é sempre fascinante, mas, quando digo que a ideia comunista é eterna, refiro-me ao fato de que é uma constante na história humana a tensão de superar a condição de escravidão e exploração. Por isso, o comunismo volta sempre, mesmo quando tudo previa que fosse permanecer definitivamente sepultado sob os escombros do socialismo real.
Dia do TRABALHADOR.
| 125 vezes Maio ! |
A todos
que saíram às ruas
de corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!
O ano um do Dia Internacional do Trabalhador, acontece em 1866, nos Estados Unidos, quando a Federação Americana do Trabalho e os Cavaleiros do Trabalho, apresentam a proposta de redução da jornada de trabalho aprovada em assembleia:
A partir de hoje
nenhum operário
deve trabalhar
mais de oito horas por dia.
Oito horas de trabalho!
Oito horas de repouso!
Oito horas de educação!
Depois das oito horas, os operários abandonam as máquinas e saem às ruas, junto às centenas de milhares de trabalhadores de todo país. Em cada um dos estados, a luta persiste até chegarem ao acordo por oito horas de trabalho, ou por 10 horas com aumento de salário. Mas, na maioria dos estados, os patrões reagem com a violência policial ou de grupos de direita armados, como os “Defensores da Ordem”.
Mas, foi em Chicago que a história do 1º de Maio ficou marcada. Eu estava lá, vi e ouvi tudo. Você também há de se recordar. Nós estávamos lá, e participamos da luta de classes, e pelo 1º de Maio na conquista do nosso direito às oito horas de trabalho.
Em Chicago, coração da indústria norte-americana, a luta é mais sangrenta. Os operários, muitos deles organizados em partidos e sindicatos anarquistas e socialistas, decidem eliminar a interminável jornada de 14 a 16 horas por dia. Os poderosos patrões de Chicago declaram no Chicago Times a sua opinião sobre a reivindicação operária:
A prisão e o trabalho forçado
são a única solução possível para a questão social.
O único jeito de curar os trabalhadores do orgulho
é reduzi-los a máquinas humanas,
e o melhor alimento que os grevistas podem ter é o chumbo.
Os sindicalistas, August Spies e Albert Parsons, são marcados.
No jornal Mail, os patrões decidem acusar publicamente August Spies, anarquista que dirige o jornal Arbeiter Zeitung para os milhares de trabalhadores de origem alemã e Albert Parsons, líder sindicalista, fundador da Central Union, e diretor do jornal operário Alarm:
Circulam livremente nessa cidade
dois perigosos cafajestes,
dois canalhas que querem criar desordens.
Um se chama Spies, o outro Parsons.
Vigiai-os, segui-os;
considerai-os responsáveis
se acontecer alguma coisa.
E se algo suceder, eles que paguem por isso.
O 1º de Maio de Chicago se inicia com uma greve vitoriosa. Sábado, fábricas, lojas, transportes, tudo está parado. Milhares de trabalhadores marcham junto com a Federação Americana do Trabalho e os Cavaleiros do Trabalho pela avenida Michigan até a praça Haymarkert.
Os imigrantes italianos, irlandeses, alemães, poloneses e russos, identificam-se por suas roupas tradicionais. Homens, mulheres, crianças acompanham a manifestação. A Guarda Nacional espalha-se entre as esquinas e no alto dos edifícios. Na praça, oradores fazem seus discursos em diferentes línguas. Parsons também fala, junto com sua esposa e sua filha Lulu, de sete anos. Se os patrões não cedem, decidem manter a greve. E todos voltam, unidos, decididos e em silêncio para suas casas.
2 de Maio, domingo a organização da greve se amplia. O movimento segue forte. Os patrões têm um plano: colocar a polícia nas ruas para atacar os trabalhadores, prender os grevistas e perseguir os sindicalistas.
3 de Maio, segunda-feira, a polícia atira contra os operários em frente à fábrica McCormick Harvester. O resultado da repressão policial: seis mortos, 50 feridos e centenas são levados para a prisão.
Spies convida os trabalhadores para uma manifestação contra a repressão, no jornal Arbeiter Zeitung e denuncia:
A guerra de classes começou. Quem pode negar que os tigres que nos governam estão ávidos do sangue dos trabalhadores. Melhor a morte que a miséria.
Parsons defende uma manifestação pacífica na noite do dia seguinte. Todos devem levar os filhos. Ninguém poderia imaginar o que iria acontecer...
4 de Maio, terça-feira, 7h30 da noite.
A praça Haymarket está lotada de grevistas em luto. Spies, Parsons e Sam Fielden falam sobre a necessidade de manter a greve pelas oito horas.
No final da manifestação, todos são surpreendidos pela violência de 180 policiais que espancaram centenas de trabalhadores.
De repente, uma bomba explode entre os policiais. 60 são feridos e outros morrem logo em seguida. Era o sinal esperado para o massacre.
A ordem é enviar mais policiais para a repressão em massa. Ninguém escapa: homens, mulheres e até mesmo crianças. A praça fica ensanguentada. Nunca se descobriu a quantidade exata de mortos, pois a ordem foi fazer enterros clandestinos.
É decretado Estado de Sítio. O objetivo dos patrões e do governo: destruir a liderança e derrotar o movimento pelas oito horas de trabalho.
Inicia-se a caçada aos grevistas. Bandidos são contratados para invadir e destruir a casa dos trabalhadores, espancar os familiares, ameaçar quem continuasse a greve. Dedo-duros infiltram-se no movimento grevista e indicam os lutadores mais aguerridos para serem acusados pelo atentado à bomba.
A farsa tinha sido montada para levar à julgamento os oito líderes: August Spies, Sam Fielden, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Schwab, Louis Lingg e Georg Engel e Albert Parsons.
21 de junho de 1886. Durante o julgamento, a farsa é desmontada. As provas e as testemunhas são falsas. Mas, a justiça é comandada pelos patrões. Os oito líderes do movimento pelas oito horas já estavam condenados antes de chegar ao tribunal. Um dos jurados dá a sentença:
Que sejam enforcados.
São homens demais desenvolvidos,
demais inteligentes,
demais perigosos
para os nossos privilégios.
9 de outubro de 1886.
Sentença final.
Cinco são condenados à morte: Parson, Engel, Fischer, Lingg e Spies.
Dois são condnados à prisão perpétua: Fielden e Schwab.
Um é condenado à quinze anos de prisão: Neeb.
Neeb é o primeiro a falar, depois de ouvir a sentença, e pede para ser condenado à morte, como seus companheiros, pois não pode ser mais inocente que os outros, já que todos são completamente inocentes:
"Cometi um grande crime, excelência. Eu vi os balconistas desta cidade trabalhar até 9 ou 10 horas da noite. Lancei um apelo para a organização da categoria e agora eles trabalham até as 7 horas da noite; aos domingos, estão livres. E isso é um grande crime".
Em seguida, Spies desafia a injustiça dos poderosos:
"Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário – este movimento do qual milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção -, se esta é sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não podem apagá-lo".
Lingg defende a honra da classe trabalhadora:
"Permiti que vos assegure que morro feliz porque estou certo de que centenas, milhares de pessoas a quem falei recordarão minhas palavras".
Parsons, grande orador, fala por mais de uma hora sobre os ideais socialistas para os operários:
"Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão. A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objetivo do socialismo".
11 de novembro de 1886.
Enforcamento dos líderes grevistas.
Spies, Engel, Fischer e Parsons são levados para o pátio da prisão para serem enforcados. Lingg suicidou-se na cadeia. Não se acovardam e nem se deixam silenciar diante da morte.
Spies desafia:
Adeus, o nosso silêncio será muito mais potente do que as vozes que vocês estrangulam!
Engel grita:
Viva a anarquia!
Fischer murmura:
Eis o dia mais feliz da minha vida.
Parson é enforcado antes que termine a frase:
Deixem-me falar com o meu povo...
Os operários carregam os restos mortais dos mártires de Chicago. Manifestações pelas oito horas de trabalho se intensificam de Chicago para todo o país e dos Estados Unidos para o mundo. Mas, os trabalhadores nunca se esqueceram da injustiça cometida e exigem a libertação dos inocentes e a condenação dos responsáveis pelo enforcamento dos companheiros.
Apenas em 1892, o governador de Illinois reconhece o assassinato de Estado, anula a sentença, liberta os três prisioneiros e acusa de infâmia o juiz, os jurados e as falsas testemunhas.
Em 1889, A Federação Americana do Trabalho propõe que o dia 1º de Maio seja o dia de greve geral pela redução da jornada de trabalho, em memória à luta dos oito companheiros de Chicago. E nesse mesmo ano, um congresso internacional de trabalhadores, na França, decide transformar o dia 1º de Maio em data fixa para manifestação internacional de todos os trabalhadores pela redução da jornada de trabalho para oito horas, dentre outras reivindicações.
Nos Estados Unidos, os oito de Chicago são sempre lembrados no May Day. Todos nós, que lá estivemos junto com nossos companheiros do passado, pela herança de suas lutas, e herdamos as suas conquistas, lembraremos, nas praças, desses 125 anos de luta do 1º de Maio junto com nossos atuais companheiros e companheiras.
Em homenagem aos 125 anos do 1º de Maio e aos 140 anos da Comuna de Paris, encerramos com o poema de Brecht escrito entre os anos 1948 e 1949 para a peça Os dias da Comuna. Suas lições não perderam a atualidade...
TODOS OU NINGUÉM
Bertolt Brecht
(Peça teatral Os dias da Comuna- 1948-49)
Escravo, quem vai te libertar?
Aqueles que estão no fundo mais fundo,
Camarada, vão te ver.
E ouvirão o teu grito:
Os escravos vão te libertar.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Faminto, quem vai te alimentar?
Se quiseres um pedaço de pão
Junta-te a nós, nós que temos fome
Deixe que te mostremos o caminho:
Os que têm fome vão te alimentar.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Quem, vencido, quem te vingará?
Tu, que fostes golpeado
Junta-te às fileiras dos feridos
Nós em todas nossas fraquezas,
Camarada, vamos te vingar.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Quem, perdido, que se atreverá?
Quem sua miséria não mais suporta
Pode, deve se juntar com aqueles
Que por necessidade cuidam
Para que seja hoje e não amanhã.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Sozinho ninguém pode se salvar.
Fuzis ou correntes.
Ninguém ou todos. Tudo ou nada.
Fonte: http://lutadeclasses.blogspot.com/